Ttulo: Aprendendo a ser pai
Autor: Patricia Knoll 
Ttulo original: Project: Daddy
Dados da Edio: Editora Nova Cultural 2001
Publicao original: 2001
Gnero: Romance contemporneo
Digitalizao: Nina
Reviso: Bruna
Estado da Obra: Corrigida

Uma bab para duas crianas ou para um homem?

Quando Mac Weston viu-se cuidando de seus dois sobrinhos, percebeu que havia entrado em uma grande enrascada! Ele sempre trabalhara duro, mal tinha tempo para cuidar de si mesmo, quanto mais de duas crianas levadas. Sendo assim, no teve escolha seno contratar Paris Barbour como bab.
Paris notou imediatamente que Mac adorava os sobrinhos  apenas no sabia como demonstrar esse amor. Ele precisava aprender a ser pai, e nada melhor do que algumas aulas com ela. Mas o que de fato Paris queria era que Mac percebesse que estava pronto no apenas para ser pai, mas tambm... marido!
Patricia Knoll
Aprendendo a ser pai

CAPTULO I

Mackenzie Mac Weston, um rapaz de um metro e setenta de altura, cabelos castanhos e crespos, enormes olhos verdes, sentiu-se como se tivesse sido apanhado por um furaco. Um furaco de nome Paris Katharine Barbour que o acordara s oito horas naquela manh.
Mais tarde, ele passara meia hora em p no mesmo lugar, tentando imaginar como aquilo acontecera.
Rememorava com cuidado a conversa que tivera com Paris quando ela chegara a sua porta, mala na mo e um sorriso luminoso nos lbios.
Esfregou o rosto que no barbeava havia dois dias e tentava recordar como tudo comeara.
Colocou as mos nos bolsos da cala e olhou a escurido. Ficou frustrado ao constatar que sua cala comeava a escorregar pelos quadris. Puxou-a e colocou-a no lugar. Devia ter posto um cinto. Todas as suas calas estavam folgadas ultimamente, e tudo o que ele fazia era apertar um pouco mais o cinto. No queria comprar outras, e nem tinha dinheiro para isso. De qualquer maneira, preferia ser chicoteado a ir  cidade com o fim de compr-las.
A cala no era seu problema imediato, contudo. A sra. Paris Katharine era um dilema mais urgente.
	Sr. Weston?  ela perguntara, esgueirando-se pela porta to logo ele a abrira. Sorriu, exibindo os dentes alvos, maravilhosos.  Sou Paris Barbour. O anncio do jornal pedia uma governanta de crianas. E eu me perguntei, por que no ir logo l?
	O anncio?  Mac ficou parado, com a porta aberta, olhando para a saia que ela usava, colorida em vrios tons de vermelho, lils e amarelo.
Paris, com gentileza, tirou a mo dele da porta e fechou-a, como se dissesse que, agora que estava dentro, no seria desalojada. Colocou sua mala no cho.
	Paris...
	Barbour  ela terminou, olhando ao redor.  Paris Katharine Hepburn. Nome diferente. Mas  que um dos filmes preferidos de minha me era Summer-time, com Katharine Hepburn e Rossano Brazzi. O filme passa-se em Veneza e minha me queria que meu nome fosse Veneza Katharine. Porm meu pai meteu-se no meio disso e exigiu que se pusesse Paris em vez de Veneza. Pensando bem, ficou melhor do que Zurique ou Detroit, no acha?
Mac no conseguia dizer nada. Estava mergulhado na torrente das palavras dela. Levou alguns segundos para voltar  superfcie. Jamais imaginara que uma pessoa pudesse enunciar tantas palavras em to pouco tempo. Enfim, ele falou:
	Por que... por que mesmo voc disse que veio aqui?
	Por causa do anncio, lembra-se? Estou dando uma resposta ao anncio.
	Em pessoa?
	Sim  ela respondeu.  Seu anncio parecia to urgente, por isso pensei que o melhor seria comear imediatamente.  Ela tirou do bolso o recorte do jornal e leu-o.  Governanta para duas crianas pequenas. Bom salrio e benefcios. Certo?  voc, no ?
	Mas eu s pus esse anncio no jornal esta manh...
	timo, quer dizer ento que sou a primeira a vir.
	Como me achou? Apenas dei o nmero de meu telefone.
Talvez algum na pequena cidade a tivesse informado onde era sua casa, ele pensou.
 Oh, no importa. Estou aqui agora, isso  s o que interessa.  Paris virava a cabea de um lado para o outro e seus incrveis cabelos moviam-se suavemente, captando a fraca luz da manh.  Onde esto as crianas?  perguntou.
Mac desviou o olhar dos cabelos de Paris e comeou a abotoar a camisa. Ele sara do chuveiro para abrir-lhe a porta. Demorou para se lembrar, to estonteado estava.
	Na cozinha  disse enfim , Elly e Simon esto tomando a refeio da manh.
	Oh, acho que vim muito cedo. Quis ter certeza de ser a primeira a chegar.
	Acredite-me, de fato foi. Mas, uma vez aqui, venha  cozinha.
Ele a conduziu atravs da sala. Mac nunca se incomodara antes que pessoas entrassem e vissem o lugar pouco convidativo onde morava. Mas havia qualquer coisa naquela mulher de olhos brilhantes e saia colorida que o fez compar-la a uma borboleta presa numa sala acinzentada. Isso o perturbou.
Ela no disse nada quanto ao lugar vazio, quase nu. Aps segundos Mac entendeu o porqu. Paris no tirava os olhos da enorme janela.
 Que vista encantadora!  exclamou, evidente mente atnita com a vasta expanso do oceano visvel atravs do vidro.  Sempre quis morar perto do mar.
Irritado, Mac disse:
	Se essa foi a nica razo para desejar este emprego, est no lugar errado.
	No  minha nica razo. Na realidade, no foi razo de maneira alguma. Eu no sabia sobre a vista, concorda? Estou aqui porque precisava de um emprego e esse  um no qual sei que sou boa.
Mac fitou-a com uma ruga na testa, com uma expresso que algum j lhe dissera que ele ficava parecido a um urso com indigesto. A borboleta no se intimidou. Inclinou a cabea para o lado e fitou-o como se lhe perguntasse se ele tinha outros comentrios a fazer.
E ele tinha.
 Bem, vamos ver o resto depois. Entre.
Virando-se, conduziu-a  sala de jantar vazia, apenas com um aparador empoeirado jogado em um canto. Atravs de um arco, passaram para a cozinha.
Era bastante completa. A direita havia um fogo de excelente qualidade e uma geladeira. A esquerda, uma pia dupla e longos balces brancos, ladrilhados. Todos os armrios eram brancos e as panelas de ao inox. No meio da cozinha havia uma mesa com tampo de mrmore, que mais parecia uma mesa de sala cirrgica.
 Quando o grupo dos cirurgies vai chegar?  Paris perguntou, irnica.
Mac franziu a testa de novo, embora concordasse com o comentrio dela. Contudo, no fora ele quem escolhera a decorao, e, na realidade, no se importava com esse problema. Era uma cozinha, onde podia comer depois do trabalho. Apenas isso o interessava, at alguns dias atrs. Agora, que passava mais tempo ali, o aspecto desolador comeava a enerv-lo.
Fez um gesto para que Paris o seguisse at a janela. Num recanto havia um conjunto de mesa e cadeiras de vinil vermelho que tinham sido trazidas da casa de seus pais. A nica coisa na casa com um qu de personalidade. Paris devia ter notado isso, porque apreciou as peas demoradamente antes de ver a sobrinha e o sobrinho de Mac.
Elly, de quatro anos, ajoelhava-se em uma das cadeiras onde o tio a colocara antes de ele e Simon irem ao chuveiro. Elly tinha uma tigela a sua frente, e comia. Seus cabelos encaracolados, de um louro avermelhado, pareciam no ter sido penteados desde que chegara  casa de tio Mac. Simon, de um ano e meio, que tambm tinha cabelos crespos e avermelhados, sentava-se sobre uma pilha de livros e estava amarrado na cadeira com uma gravata que passava por baixo de seus braos e era atada nas costas. Ambas as crianas levantaram a cabea quando os adultos entraram. Tinham o rosto sujo de chocolate e nenhum dos dois sorriu. Reagindo  vista de outro estranho, Elly desceu de sua cadeira e correu para perto do irmo, em atitude protetora.
Mac ficou um pouco sem jeito ao notar os preocupados olhos azuis da sobrinha e do sobrinho, mas no sabia o que fazer. Raramente os vira antes da chegada deles a sua casa, dois dias atrs. E no sabia nada sobre crianas. Vagamente lembrava-se de sua prpria infncia.
Paris sorriu para os dois, e disse:
 Al. Meu nome  Paris. E o de vocs?
Elly olhou para o tio esperando uma aprovao. Dois dias antes a menina tivera medo dele. Agora, fitava-o procurando segurana. Enfim, levantou um dedo sujo de chocolate e apontou para si mesma.
	Eu sou Elly. E ele  Simon.  apenas um beb.
	Posso ver.  Paris foi para perto da mesa e viu as tigelas das crianas. Espantou-se.  O que esto comendo?
	Barras de chocolate  respondeu Elly.  Muito bom.
Mac sentiu o olhar de Paris, sacudiu os ombros, e comentou:
	No tive tempo de ir ao supermercado.
	Quer dizer que isso  uma coisa que devo fazer em seu lugar, certo?  Em seguida, vendo que Elly terminara, sugeriu:  Por que no lavamos suas mos antes de voc descer da cadeira?
Sem esperar pela resposta de Elly, Paris pegou uma toalha, umedeceu-a e comeou a limpar as mos da menina. Elly quis reagir mas Paris ps-se a falar sobre o lindo dia e como eram felizes por morar perto do mar, podendo ver gaivotas voando acima de suas cabeas naquela manh. Elly relaxou logo, e at sorriu para Paris.
Mac sentiu-se desapontado. Elly no permitira que ele a tocasse na vspera, chamando pela me cada vez que o tio tentava fazer qualquer coisa para ela. Simon era mais cordato, parecia gostar de Mac.
A fim de no se sentir completamente intil, Mac foi buscar um copo de gua para cada um dos dois.
Depois levou as crianas  sala de jogos dando-lhes assim a oportunidade de ver alguns desenhos na televiso. Quando os dois se acomodaram no cho, Mac deu um suspiro de alvio e foi  cozinha a fim de entrevistar a governanta. Nunca fizera isso antes, mas tinha uma bsica idia sobre o que perguntar.
Na cozinha, encontrou Paris ocupada revistando os armrios e a geladeira. Tinha nas mos um pedao de papel, um lpis, e fazia uma lista.
	Espere  ele disse, erguendo a mo.  Antes que faa planos, preciso saber algumas coisas sobre sua experincia de vida.
	Certo  Paris respondeu.
A geladeira no estava vazia. Havia seis latas de cerveja, dois pes amanhecidos e diferentes tipos de mostarda. Mac geralmente no comia em casa, mas em qualquer lanchonete por onde passasse, indo ao trabalho ou voltando a casa.
	Meu nome  Paris... oh, j lhe disse meu nome. Sou viva. Preciso de um emprego e este me parece ser um que posso fazer bem.
	O que exatamente quer dizer?
	Que posso tomar conta de sua casa e de seus filhos.
	No so meus filhos.  Mac chegou mais perto de Paris e sentiu nela um perfume de violeta que subiu diretamente a sua cabea. Achou que precisava de uma xcara de caf. Apanhou a cafeteira eltrica e comeou a preparar o caf.
	No so seus filhos?
	Elly e Simon so filhos de minha irm. Sheila chegou aqui h dois dias, logo depois que eu voltei do trabalho, e disse que precisava que eu tomasse conta das crianas durante algum tempo, pois ia  Africa num safari fotogrfico.
	Ela  fotgrafa?
	Ela nem sabe o que  uma lente. Seu novo namorado  fotgrafo e minha irm vai junto para lhe fazer companhia. Infelizmente, no  uma me muito responsvel.
Mac terminou de fazer o caf, com gestos impacientes. Estava furioso. No se conformava por Sheila ter lhe imposto a guarda dos filhos. Ela beijara-os e se fora.
Mac no sabia por que estava to surpreso. Toda sua famlia mimara Sheila a vida inteira. Ela se divorciara porque o marido, egocntrico tambm, no a mimava como a famlia Weston fizera. Ele partira logo depois do divrcio, mal conhecendo Simon. Quando Sheila decidira ir ao safari, achara que o irmo mais velho, Mac, seria a escolha lgica para cuidar de seus filhos.
Pobres crianas, Mac pensava. Arrastados de um lugar para outro, durante toda sua curta vida. E enfim deixadas aos cuidados de uma pessoa que no sabia o que fazer com criaturas to pequenas. Ele examinou Paris que se sentara  mesa, depois de ter certeza de que havia limpado bem o rosto de Elly e de Simon. Mac se perguntava se ela era capaz de tomar conta de seus sobrinhos. At o presente momento, no obtivera nenhuma informao de Paris excetuando-se a de que era viva. Perguntava-se h quanto tempo o marido havia morrido. Paris no parecia nada sofrida com a morte do companheiro, mas ele, Mac, era a ltima pessoa no mundo a julgar a que ponto a desgraa afetava uma pessoa. Os bons cidados de Cliffside, a cidade onde morava, falavam sobre as coisas desagradveis que sucederam na vida dele e que serviram apenas para transform-lo num homem desprezvel e teimoso. Pena no poder discordar de seus vizinhos, Mac admitia.
 Tem um currculo de tudo o que fez na vida?  perguntou a Paris abruptamente.
	Claro.  Ela tirou da bolsa um envelope e entregou-o a Mac, que o abriu e comeou a ler o que estava escrito num papel. Paris olhava para o cu azul, pela janela aberta. Quando notou que Mac a observava, perguntou:  Esplndido, no?
	Voc organizava a campanha anual com o fim de angariar fundos para a Liga Jnior?
	E este ano superei a arrecadao do ano anterior  ela explicou.
	Foi a presidente do comit do baile do Clube de Campo?
	Todos que o assistiram foram unnimes em dizer que havia sido o melhor baile j visto.
	E dirigente das aulas da cozinha escandinava?
 Meu amigo dinamarqus ficou encantado com meu trabalho.
Paris inclinou o corpo para a frente como se esperasse pelos aplausos de Mac.
Ele leu tudo de novo a fim de ver se perdera algum detalhe. Depois comentou:
	No h aqui evidncia de que tenha tido um emprego com salrio.
	Como?
	E teve?
	No... No posso dizer que tenha tido.
	Tudo o que fez at hoje foi apenas trabalho voluntrio?
	E o fiz muito bem, por sinal.
	Sra. Barbour...
	Paris, por favor.
	Isso tudo que li nesse resumo no tem nada a ver com o trato de crianas e cuidados na organizao de uma casa.
	No  verdade. Se ler com mais ateno, ver que tive experincia cuidando de crianas durante todo o ano letivo. No tinha mesada, por isso aprendi a economizar dinheiro. Tambm, passei um vero cuidando de duas crianas enquanto a me estava doente.
	Cuidar de crianas temporariamente  bem diverso do que ser uma governanta.
	As obrigaes so na verdade as mesmas.
	Porm as responsabilidades no.
	Concordo  ela disse.  Felizmente sou verstil e posso aprender depressa. Eu nunca me vira envolvida com o trabalho de angariar fundos antes, e fiz esse trabalho para a Liga Jnior muito melhor do que se esperaria.
	Muito bem. Mas quando foi a ltima vez em que cuidou de crianas?
	Seis anos atrs, mais ou menos. Adquiri uma habilidade da qual nunca me esquecerei. E conclu que posso fazer qualquer coisa a que me propuser. Como j disse, aprendo depressa.
E fala depressa tambm, ele pensou.
 J dirigiu uma casa?  Mac lhe perguntou.
 Naturalmente. Bem, supervisionei.
Passando uma ltima vista d'olhos pelo papel, Mac dobrou-o, colocando-o no envelope. No sabia qual era o tipo de jogo de Paris, mas de forma alguma queria tomar parte nele.
	Por que uma moa da sociedade como no seu caso quer esse tipo de emprego?  perguntou.
	No sou uma moa da sociedade. Ao menos, no mais. Preciso me manter. E este  um trabalho que sei que posso fazer bem. No vai arriscar nada contratando-me. H referncias em meu currculo, dadas por pessoas muito honestas. Sou boa cozinheira, qualquer mulher sabe limpar uma casa, e o que no souber sobre crianas, aprenderei.
	No...  ele comeou a falar, sacudindo a cabea, mas Paris interrompeu-o.
 Uma experincia de duas semanas, ento  ela suplicou, com tristeza nos profundos olhos verdes.   tudo que lhe peo.
Mac sentiu-se mal ao constatar tanta necessidade nos olhos dela. Gostaria de sumir como um caranguejo rastejando pela areia. No era suficiente ele ter aquelas duas crianas para cuidar? No queria ningum mais  volta, que precisasse de sua ateno. Mas antes que pudesse reagir, ela segurou-lhe a mo apertando-a com fora, na inteno de convenc-lo.
Mac puxou a mo, e tomou um gole de caf para encobrir a retirada da mo. Paris corou, embaraada pelo gesto.
O que estaria acontecendo?, ele se perguntou. Nada de misterioso, concluiu aps segundos. Passara muito tempo sem mulher, e isso apenas .confirmava que no precisava de nenhuma a seu redor.
	Sinto muito, sra. Barbour. Mas quero algum com mais experincia.
	Sou confivel  ela declarou desesperada, apontando para a sala em que as crianas assistiam  tev.  Pde ver por si mesmo como Elly gostou de mim. Naturalmente, sei que a economia do pas vai bem agora, e h muitos empregos  disposio para quem deseja um...
	Nesse caso, por que no tenta um desses empregos?  Mac cortou-lhe a palavra.
	Porque prefiro trabalhar em casa de famlia.  possvel que o senhor tenha dificuldade em encontrar algum que goste de trabalhar aqui.  um lugar um tanto... isolado.
As palavras ermo e esquecido por Deus, usadas por sua ex-noiva Judith, ecoaram em sua mente. Ela sempre desejara morar perto do mar, porm apenas onde houvesse muita vida social, de preferncia um iate-clube. No se entusiasmara quando Mac construra a casa em Cliffside, perto do lugar onde ele sempre vivera com os pais, na parte rochosa da costa.
No podia imaginar, portanto, que uma organizadora de bailes no Clube de Campo pudesse ser diferente de Judith. Por outro lado, precisava de algum para tomar conta de Elly e de Simon. Teria de comear a trabalhar na segunda-feira, arriscando-se a perder o emprego caso no comparecesse. Porm tinha medo de contratar Paris. A moa era atraente demais, cheia de vida para morar naquele lugar repleto de emoes e ms lembranas.
Mas Elly e Simon eram na verdade o que deveria ser levado em considerao, no ele. Podia se ressentir de Sheila, contudo, tinha de fazer o melhor para os sobrinhos. Apesar do que os habitantes da cidade pensavam dele, sempre cumprira suas obrigaes. Era um homem de responsabilidade.
Porm no podia contratar Paris. Ia dizer isso novamente quando Simon entrou na cozinha. Arrastava seu cobertor e carregava um livro embaixo do brao.
 L isso pra mim  Simon resmungou, mostrando o livro.
Aliviado porque poderia usar o menino como uma desculpa para terminar com a entrevista e mandar Paris embora, Mac estendeu a mo ao menino. Porm Simon ignorou-o, indo para perto de Paris que, apesar de atnita, logo colocou o garoto no colo e examinou o livro.
 Animais?  ela disse.  Meu assunto preferido.
Satisfeito, Simon acomodou-se melhor no colo dela, ps o polegar na boca e comeou a mexer nos cabelos de Paris. Mais uma vez ela se surpreendeu. Mas no o afastou, sabendo que ganhava pontos junto a Simon e a Mac.
Abriu o livro e comeou a ler sobre os animais preferidos de Simon. Mac abrandou-se em relao a ela. Talvez fosse verdade que crianas e cachorros eram bons juzes sobre em quem confiar. Sendo assim, Simon sem dvida confiava em Paris.
No entanto, ela no tinha experincia ou treinamento. Uma mulher scia do Clube de Campo no devia ter nada a fazer naquele lugar. E por que desejava um emprego? Ele no estava satisfeito com as explicaes e queria mais respostas. Porm, esperar por mais respostas significava conserv-la l por mais tempo, quando o melhor seria ficar livre dela quanto antes. E cuidaria disso logo que Paris terminasse com a leitura do livro.
Enquanto Mac a observava, Paris mudou de posio na cadeira para que a luz do sol iluminasse melhor o texto. Mas incidiu tambm em seus cabelos, transformando-os em ouro e dando-lhe  pele uma claridade luminosa. Para seu horror, Mac sentiu como se a luz estivesse chegando at ele, queimando-o. Mentalmente controlou-se, criando barreiras imaginrias. Mas quando Simon encarou-o e inesperadamente sorriu para o tio pela primeira vez desde a chegada dela, Mac sentiu qualquer coisa em seu interior. E embora sendo a ltima coisa que esperaria sair de sua boca, disse de maneira abrupta:
 Duas semanas.
Paris fitou-o com curiosidade.
 Como?  perguntou.
Considerando-se um perfeito idiota, Mac explicou:
 Voc pode ter duas semanas de experincia. Depois disso, veremos. E devo preveni-la de que no sei por quanto tempo ter este trabalho. Sheila pode voltar na prxima semana ou no prximo ano, mas suspeito que ela ficar longe durante muito tempo. Comearemos com duas semanas.
Alvio e alegria tomaram conta de Paris, iluminando seu olhar.
 No vai se arrepender, sr. Weston.
Ele j se arrependia. Ento, para tornar bem claro que tinha a ltima palavra, repetiu:
 Experincia de duas semanas. E s. Se no funcionar, acabaremos com tudo imediatamente. Nada de arrependimentos de nenhum lado. Ok?
Paris sorriu como se ele lhe tivesse dado um presente. Todos os outros sorrisos anteriores haviam sido de charme para conseguir o que desejava. Mac estava acostumado com o outro tipo de sorriso. Mas aquele era de puro prazer e gratido como se ele houvesse feito uma grande coisa e fosse o mais maravilhoso dos homens.
No podia se lembrar da ltima ocasio em que algum o olhara daquele jeito, se  que isso acontecera um dia. Mais uma vez sentiu algo em seu interior e lutou contra esse sentimento.
 Duas semanas  Paris repetiu, obviamente tentando esconder sua alegria e ter uma aparncia profissional.  Isso me soa muito justo.  Ela abraou Simon.  Que tal acha eu comear assim que terminar com a leitura do livro, sr. Weston?

CAPTULO II

E comeou. Paris pegou o dinheiro que Mac lhe entregou e foi  despensa para verificar o que faltava.
 Faa as compras em Alban. Fica a vinte quilmetros daqui, seguindo pela estrada principal ele orientou.
Paris fitou-o, surpresa.
	Posso ir a Cliffside,  bem mais perto.
	E os preos bem mais altos. V a Alban. H um timo supermercado l.
Ela ia comear a protestar de novo, porm Mac ergueu a mo.
	Enquanto voc for, checarei suas referncias  disse.
	Tudo bem  Paris concordou.
Mac pde ver que ela queria reagir. Enxergou uma pequena guerra surgindo no interior de Paris, mas percebeu que ela preferira guardar os pensamentos para si. Devia admir-la por isso, contudo evitou, porque isso a tornaria real demais, uma pessoa com alma, enfim.
Conhecia-a havia menos de uma hora, e no pretendia conhec-la melhor. Afinal, tratava-se de uma empregada e ele aprendera a duras penas que a familiaridade entre patro e empregada precisava ser evitada a qualquer custo. Apesar de tudo, viu-se oferecendo o uso de sua van para a viagem at Alban.
	Isso?  Paris perguntou, olhando a velha caminhonete estacionada  entrada.
	. Vai precisar de espao para as compras.
	No, obrigada  Paris agradeceu, divertida.  No gosto de dirigir carros alheios. Vou em meu carro. Trouxe apenas uma mala. Uma vez que ficarei, posso levar o resto para dentro e abrir espao em meu carro.
Com essas palavras ela foi esvaziar o veculo, bastante velho tambm. Mac sentiu outra onda de admirao pelo modo como Paris agira.
Os dois tiraram tudo do carro e Mac carregou para o quarto que ela mesma escolhera, ao lado do das crianas. Imaginou que Paris possura carros melhores no passado, e concluiu que a moa de fato estava em dificuldade.
Eram dois, nesse caso. Ele tambm tivera uma magnfica van que impressionara os vizinhos, e um carro esporte azul-marinho, seu orgulho. Mas vendera-a ambos sem sofrimento, quando precisou de dinheiro.
Agora, ao comear a olhar para o mar, Mac, que no tivera curiosidade por nada durante mais de um ano, se perguntava o que Paris perdera, e por que estava l agora, como governanta e empregada de um homem sozinho e de duas crianas abandonadas.
Paris deixou a porta de seu quarto entreaberta para que as crianas tivessem um pouco de luz e tambm para que pudesse ouvi-las durante  noite, se a chamassem.
Era grata a Elly e a Simon por estarem dormindo. Tiveram um dia cansativo e por certo s acordariam de manh. Embora no soubesse muito sobre crianas, entendia o que era ter seu mundo virado de pernas para o ar, exatamente o que acontecia com Elly e Simon. Conhecia-os havia menos de quatorze horas, mas queria tentar fazer as coisas mais fceis para os dois. Comovia-se ao ver a pequena Elly aceitar as circunstncias e tomar aquela atitude de proteo com Simon. Elly estivera atrs de Paris o dia todo e j eram amigas. Assim que Simon perdeu parte de sua timidez e comeou a falar com a governanta, Elly interpretava sua linguagem de beb. Apesar disso, Paris se perguntava se a menina a chamaria no meio da noite, caso tivesse medo. Esperando que sim, e que a ouvisse se acontecesse, ps-se a pensar em sua situao.
Esfregando a testa, nervosa, se questionou sobre em que se metera.
O anncio do jornal parecera-lhe maravilhoso logo que o lera. Tratava-se de um trabalho que podia fazer e que ficava em um lugar onde ningum a conhecia ou se importava com ela.
Examinou seu quarto. Uma cama, uma mesa, um abajur, era tudo. Alis, quase igual ao quarto das crianas. Cada item parecia ter sido comprado recentemente, e de segunda-mo.
O mais triste disso tudo era que no vira um nico brinquedo ou roupas nos armrios, como se a me pouco se incomodasse em prover as necessidades dos filhos. Paris teve vontade de chorar. Alm de abandonadas, as crianas precisavam aguentar a pouca aptido do tio. No podia dizer que Mac no se importava com os sobrinhos. Ao menos tinha algum senso de responsabilidade, sem dvida mais do que sua irm.
Na manh em que ela chegara, tivera uma viso to maravilhosa do local que se animara. A casa fora construda sobre um rochedo com vista para o Pacfico, e esse foi um dos motivos para que se decidisse segurar o emprego. Nem a atitude do agressivo homem que lhe abrira a porta a fizera desanimar, afinal, sentia-se como se tivesse todo o direito de estar l.
Sabia que dera m impresso a Mac, fazendo-o pensar que era ousada e franca demais, quando, na verdade, era expansiva mas no autoritria. Ao deixar seu lar em Hadley, no Imperial Valley, resolvera que tinha de mudar. Seus dias de dependncia haviam terminado. Sendo dependente, no ganhara nada alm de uma montanha de dvidas e um corao partido.
Tremendo  lembrana do vo de Hadley, ao abandonar a cidade, e de algumas coisas que aconteceram desde ento, ela comeou a esvaziar a mala, colocando sobre a cama os itens que necessitaria para a noite, esperando encontrar mais tarde algumas caixas qu seriam usadas como cmoda.
Estava curiosa em saber por que a casa estava to nua. No teria ele dinheiro com que comprar mveis? No desejava ter nenhum? Contudo, no o conhecia o suficiente para julgar se ele estava ou no contente com to pouco.
Paris preocupava-se com Mac. Ele parecia tenso, observador. Mais de uma vez durante aquele dia sentira a ateno do rapaz sobre si, parecendo querer questionar-lhe as aes e os motivos. No que o culpasse. Sabia que seu curriculum estava longe de ser satisfatrio, como tambm suas referncias. Mas, o que Mac soubera sobre ela fora suficiente, pois a empregara.
Embora grata pelo emprego, tinha vontade de saber a razo pela qual ele a aceitara. Mas no perguntaria a fim de no arriscar ser informada que tudo fora um terrvel engano e que teria de ir embora.
"Evitar isso a todo custo", ela murmurou consigo mesma, estremecendo cheia de culpa ao reconhecer que tivera um comportamento errado no passado e que tentava se desculpar agora. No estaria naquela situao se no tivesse fingido que tudo ia bem com Keith, se tivesse evitado que ele to tolamente esbanjasse sua fortuna e a que ela herdara dos pais, se no o houvesse ajudado a gastar tudo at finalmente abrir os olhos.
Afastando esses desagradveis pensamentos, Paris saiu de seu quarto e foi falar com o novo patro. No obtendo resposta ao bater na porta do quarto dele, resolveu procur-lo pela casa.
"No deve ser difcil encontr-lo", sussurrou consigo mesma. "Afinal, ele no pode se esconder atrs dos mveis. Que mveis?"
Convencendo-se de que no estava intimidada pelo carrancudo e perturbador homem, Paris andou pela casa toda encontrando-o junto  janela da sala, olhando para a noite escura. Parou e deu um passo atrs para que seu reflexo no vidro no chamasse a ateno dele.
Mac tinha as mos nos bolsos. Embora bem-feito de corpo e com braos musculosos, parecia magro demais. Dissera a Paris que era carpinteiro e um carpinteiro necessitava de fora e energia para realizar seu trabalho. Outro rpido exame da sala a fez se perguntar se ele no era mais do que um simples carpinteiro.
Talvez tivesse construdo a prpria casa. Algo sobre a arquitetura do imvel, o teto alto, a vista para o mar, fizeram-na imagin-lo debruado numa mesa de arquiteto, cuidadosamente desenhando suas plantas.
Mac possua um rosto magro, lgubre, olhar sombrio que escondia segredos. Ela nunca se considerara astuta em ler as pessoas. Se o fosse, com certeza teria evitado que Keith gastasse tanto dinheiro com charlates. Podia ler Mac Weston, contudo, e o que via nele lhe dizia que o homem passara por momentos bem difceis e que ainda no se livrara dessas dificuldades.
Contra sua vontade, Paris sentia-se atrada por ele tanto quanto se sentia atrada pelas duas crianas. No tinha idia de qual era a histria de Mac, mas cada vez ficava mais curiosa em conhec-la. Esforava-se para se lembrar de que aquilo era apenas um emprego, um emprego que conservaria at melhorar sua situao e decidir o que fazer do resto de sua vida.
Devia ter se movido e produzido algum rudo, porque Mac virou a cabea.
	Algo errado?  perguntou.  As crianas...
	Esto dormindo. Deixarei a porta do meu quarto aberta para ouvi-los caso me chamarem. Eles dormem bem  noite?
	Esto aqui h duas noites apenas, e no dormiram bem.  Ele passou a mo pelo rosto, e Paris concluiu que Mac tambm no dormira bem.
	Vim lhe perguntar a que horas deseja seu caf da manh.  Paris no cuidava de uma casa havia muito tempo, mas sabia que esse era o tipo de pergunta que deveria fazer. Afinal, todas as governantas faziam essa pergunta,
 Alimente as crianas quando estiverem com fome  ele respondeu, fitando-a com certo embarao.
	No, eu me referia ao senhor. A que horas quer seu caf da manh?
	Posso cuidar de mim mesmo  Mac respondeu.
 No foi para isso que a contratei. Est aqui para tomar conta de Elly e de Simon, mais como uma bab.
	E de tudo referente a isso, certo? Incluindo refeies.
	Claro, mas no se preocupe comigo. Cuidarei de minha comida.
Mesmo que no tencionasse fazer isso, Paris observou como a cala dele escorregava. Sorriu, e teve vontade de dizer que ele no estava se alimentando bem.
	Contratou-me para cozinhar e  o que pretendo...
	No  ele protestou, franzindo a testa.  No quero que me encha de atenes.
	Encher de atenes?  Ela arregalou os olhos.
 Estou apenas tentando cumprir minhas tarefas.
	Que consistem em cuidar de Elly e de Simon, no de mim.
Paris ficou olhando para ele, sem entender. Que tipo de homem era aquele que no podia aceitar qualquer coisa vinda de uma pessoa que ele contratara para ajud-lo? Um homem teimoso e orgulhoso, concluiu.
	Um minuto, sr. Weston...
	Chame-me de Mac, por favor.
	Mac, ento. Embora admita que eu no tenha muita experincia para servios de casa...
	Muita?  ele perguntou, erguendo as sobrancelhas.
	Tudo bem. Nenhuma experincia. Mas convivi com vrias governantas e constatei que o trabalho delas consistia em cozinhar e cuidar de toda a famlia, no apenas das crianas.
	Considere-se ento uma pioneira nesse novo servio, sra. Barbour  ele sugeriu.
	Paris, por favor.
	Mais uma vez, no se preocupe comigo, Paris. Apenas cuide das crianas para que eu possa voltar ao trabalho e cuidar das necessidades de todos ns.
	E a que horas tenciona voltar para casa  noite? Espero que deseje passar algum tempo com as crianas.
	Estarei em casa quando abrir a porta. Estamos no perodo mais trabalhoso da indstria de construes e precisamos nos ocupar tantas horas quantas forem necessrias antes que cheguem as chuvas. Na verdade, s vezes trabalho tambm nos fins de semana.
Paris no sabia o que dizer. Entendia que ele precisava trabalhar, mas chegou  concluso de que Mac faria de tudo para evitar estar com Elly e Simon. Ficou tentada a concordar com ele. Fizera isso tantas vezes com Keith que apresentava mil histrias para desculpar seus atos, que ficara atolada na lgica do marido. Mas aquilo fora diferente. Em suas discusses com Keith, tinha apenas a si mesma para levar em considerao. Agora, precisava pensar nas crianas e no que era melhor para elas. Dedicar-se apenas ao servio da casa, no importando quo devota seria, tambm no era o melhor para Elly e Simon. Pelo bem dos dois, Paris resolveu continuar com o assunto.
	Quer dizer que s devemos esper-lo quando o virmos entrar?
	Mais ou menos isso. Confio em voc para cuidar de tudo o que os dois necessitarem. Achei que tinha tornado isso bem claro esta manh.
	Entendo minhas obrigaes, apenas no entendo o que pensa sobre sua parte, que devia consistir em dar amor e sua presena aos sobrinhos.
Furioso, Mac protestou:
 Se eu for despedido, serei uma presena constante andando pela casa o dia todo. Mas prefiro que isso no acontea, mesmo que no faa diferena para voc.
Mac comeou a se afastar, mas parou como se tivesse algo mais a dizer. Paris esperou para ver o que viria. Ele abriu a boca, depois fez uma pausa. Fixou a vista nos lbios dela, fazendo-a sentir uma pontada no estmago. Paris resolveu se afastar.
Mac tambm ia fazer o mesmo, mas antes disse:
	Procurei suas referncias.
	E?
	Carolyn, uma das pessoas da lista, disse que no a via por cinco anos j.
	Foi tanto assim?
	E o homem, o mdico de famlia, bem, ele mal pde parar de rir para que eu pudesse lhe fazer as perguntas. Mas confirmou que sua sade era excelente.
	Ele riu muito?
	Pelo visto, achou engraada, a idia de voc se empregar como governanta.
	Ok. Mas o importante  que eles garantiram a boa qualidade do meu carter, no foi? Minhas duas semanas de experincia esto em p?
	Acho que sim.  Mac comeou a se retirar.  Vou dormir. Acorde-me se precisar de minha ajuda com as crianas, durante a noite.
"Bem, no entendo mais nada", ela sussurrou consigo mesma. "Primeiro ele deixa os sobrinhos totalmente aos meus cuidados, e depois d a impresso de que est me fiscalizando bem de perto."
Aquilo no era justo.
Paris queria classificar Mac numa determinada categoria. Porm ele no cabia em nenhuma.
Seu pai fora um homem simples, inteiramente dedicado ao plantio e  colheita. Seu marido, Keith, carinhoso e tmido, ansioso por agradar a todos que o rodeavam.
Aquele homem, Mac, tinha mais facetas do que um punhado de diamantes. Mas no havia nada de precioso nele, embora parecesse ter a dureza do diamante. Confusa, ela se preparou para dormir.
Paris acordou quando uma pequena mo apertou-lhe as narinas. Deu um pulo e agarrou o pulso de Elly.
	Est acordada?  a menina sussurrou, encostando o rosto no dela.
	Agora estou.  Paris estendeu o brao e acendeu a luz.
A menina tinha os olhos cheios de lgrimas e seu lbio inferior tremia. Ela segurava um coelho de pelcia contra o peito.
	Simon quer dormir com voc  disse.  Ele est com medo e quer vir para sua cama. Quer que eu venha tambm.
	Ele quer?  Tentando acordar, Paris passou o olhar pelo quarto.  Onde est Simon?
	Acho que foi embora  disse Elly, indo para o quarto deles.
Paris jogou as cobertas longe, pegou o robe e correu atrs da menina.
Elly j estava no quarto, procurando pelo irmo.
	Ele no est aqui. Algum o roubou  ela murmurou.
	No, no, ns o encontraremos.
Um soluo atrs delas mostrou onde estava o menino. Paris foi ao corredor e viu Simon tentando alcanar o trinco da porta do quarto do tio.
Correu ao encontro dele, com Elly no colo.
 Tudo bem, Simon. Venha comigo.
Naquele instante Mac abriu a porta.
 Opa!  resmungou, recebendo o impacto da cabea de Paris contra os msculos do trax.
Ela ficou estonteada. Seriam os msculos dele feitos de ao?, se perguntou, continuando com Elly no colo.
Automaticamente, com um dos braos, Mac amparou ambas as mulheres. Com a mo livre acendeu a luz do corredor.
	Opa!  Simon repetiu, agarrando-se s pernas de Mac. Calmo agora, ele olhava para cima a fim de ver o que todos iriam fazer.
	O que houve, afinal?  Mac quis saber.
	As crianas acordaram e...  Paris queria ter certeza de que seu robe, que chegava at os joelhos, a cobria decentemente.
	Ns queremos dormir com vocs  disse Elly a Paris.  Eu e Simon.
	Entendi que voc, Elly, queria dormir comigo.
	Queria. Ns dois queramos. No queramos, Simon? Elly e Simon querem dormir com vocs.
	Dormir  Simon confirmou, e ps o dedo na boca.
	Vocs podem dormir com seu tio Mac ou comigo, no com os dois  ela disse, lembrando-se do hbito de Elly de falar sobre si na terceira pessoa.
	Com tio Mac e com Pris  Elly repetiu, contente pelo fato de os adultos terem enfim entendido.  Vamos.
Os quatro na mesma cama? Paris arregalou os olhos. Virando-se para Elly, disse:
 No, Elly, no podemos fazer isso...
 Por que no?  Mac interrompeu-a.
Alarmada, Paris insistiu:
	Porque no podemos. Seria... seria estabelecer um precedente terrvel.
	Significaria que todos ns poderamos dormir um pouco  ele explicou seu ponto de vista.
	No!  Paris protestou, horrorizada.  Seria bem melhor eu levar as crianas para minha cama, e dormirmos no meu quarto.
	O que vocs acham?  Mac perguntou aos sobrinhos.  Querem dormir com Paris?
	No  Elly respondeu com firmeza.  Pris e Mac e Elly e Simon.
	Faz sentido para mim  Mac j comeava a bocejar.  Venham. H lugar para todos comigo.
Foram para o quarto dele, o nico que Paris ainda no conhecia. Na verdade, haveria lugar para todos. A cama era enorme, os travesseiros fofos, e um acolchoado cor de vinho tinha sido jogado no cho na pressa de Mac ir ver quem estava a sua porta.
Com espao ou sem espao, Paris ainda no aceitava fazer isso.
	No acho que seja uma boa idia  disse.
	Tenho passado noites em claro por causa deles  Mac informou.  Agora  minha oportunidade de dormir, e no vou desistir disso. Os dois no queriam dormir comigo aqui e tive de dormir no cho no quarto deles. Tenho dor nas costas e jurei que dormiria em minha cama esta noite, custasse o que custasse. Agora, desista de suas objees, Paris, e no tema por sua castidade. V para a cama.
Paris ia protestar, mas viu o rosto preocupado de Elly. Sentindo-se culpada, achou que estava tornando as coisas mais difceis do que na realidade eram. Enfim, respondeu com humildade:
 Tudo bem. Vou s apagar a luz de meu quarto.
Ela colocou Elly no meio da cama, onde Mac j havia posto Simon. Foi ao prprio quarto, apagou a luz e fechou bem o robe, fazendo-o chegar o mais perto possvel do queixo.
O que estava pensando? No poderia dormir na mesma cama de um homem que conhecera naquele dia! Era loucura! Algo inimaginvel. Errado.
No dormira com nenhum homem desde a morte de Keith, ou com nenhum homem que no fosse Keith. E no queria ficar to perto de Mac. Sentia-se vulnervel. Resolveu mais uma vez tentar fazer Mac mudar de idia, mas quando ouviu os soluos de Elly chamando-a, percebeu que tinha de fazer o que fora combinado.
Entrou no quarto de Mac com relutncia. Viu logo as duas crianas no centro da cama e Elly olhando para a porta, aguardando-a.
 Venha, Pris. Entre embaixo das cobertas.
Mac estava em p ao lado da cama, e fitava-a intensamente. Seus olhos viajaram dos cabelos aos joelhos de Paris.
 Sim  disse.  Entre embaixo das cobertas e vamos dormir.
Paris no respondeu, mas ergueu a cabea e ficou grata pelo fato de Mac estar usando cueca. Resolveu ficar de roupo.
Deitou-se na cama mas no conseguiu relaxar. Mac apagou a luz e deitou-se. O colcho afundou e tornou a voltar  posio anterior. O silncio foi absoluto.
Elly estava um pouco agitada e Paris abraou-a. Depois tentou alcanar Simon para confort-lo. Mas em vez da pele suave do beb ou do volume de uma fralda, encontrou o dorso peludo da mo de Mac, que ele colocara sobre Simon.
Afastou-se depressa, e ouviu-o dizer, irritado:
 Relaxe, Paris. Est segura aqui.
Por mais estranho que isso pudesse ser, ela acreditou em Mac.

CAPTULO III

Mac estava em p  porta do banheiro da sute, enxugando os cabelos midos com uma toalha, encantado com as trs pessoas que ocupavam sua cama. Nunca lhe parecera pequena at a ltima noite, embora nunca a tivesse dividido com pessoa alguma antes. Fora a nica coisa que comprara nova quando todos os seus mveis desapareceram com a ex-noiva.
A cama parecia cheia agora, com Paris quase sobre a beirada, o mais longe possvel de seu lado, e os dois bebs praticamente em cima dela. Seus lindos cabelos dourados estavam espalhados sobre o travesseiro, escondendo-lhe o rosto. Apenas o queixo aparecia, como se a conduzisse no sono da mesma forma que ela avanava pela vida. Mac a conhecera havia menos de vinte e quatro horas, mas logo se convencera de que no gostaria de estar no fim do caminho quando aquele queixo investisse para a frente.
O que chamou sua ateno de novo, e de novo, contudo, foram os cabelos. No podia tirar os olhos deles, daquelas ondas de um louro-avermelhado contra a fronha alva, como se algum tivesse aprisionado os raios do sol ali.
Raios do sol aprisionados? Quando comeara a ser potico? Aborrecido consigo mesmo, fechou a porta do banheiro e terminou de se aprontar para o trabalho. Os lindos cabelos da sra. Barbour eram a ltima coisa na qual ele necessitava pensar naquele momento. No iria pensar nela de jeito nenhum alm de como governanta das crianas. Fora grato por Paris t-las acomodado, e a ele, na ltima noite, aceitando dormir na mesma cama. Custara um pouco, mas enfim cedera.
Mac ignorava se a soluo que encontrara para resolver o problema de crianas inquietas  noite era a convencional. Mas no sabia muito sobre a profisso de papai, e Paris no sabia muito sobre a de bab. Qualquer que tivesse sido o mtodo, as crianas dormiram a noite toda, e isso era o que interessava. Ao menos ele dormira sete horas em seguida, mais do que conseguira desde que Elly e Simon chegaram a sua casa.
Vestiu-se.
Perguntava-se se as crianas haviam dormido com algum antes. No podia imaginar Sheila permitindo que os filhos dividissem a cama com ela. No era a mais afetuosa das mes. Na verdade, a melhor palavra seria "desinteressada". Mac preocupava-se em pensar no dia em que os bebs voltassem para a me. Sem dvida, Sheila no estaria mais interessada neles no futuro do que o fora no passado. Tambm no podiam ficar com ele, pois seria ainda pior do que Sheila que, embora descuidada, ainda era a me.
Mac afastou da mente esse pensamento. Sheila era o que todos fizeram dela. Porm agora havia duas crianas em jogo. Era diferente quando fora sozinha, sem carregar consigo a responsabilidade sobre Elly e Simon. Uma vez a irm de volta, Mac pensou, ele no veria as crianas to cedo, quem sabe durante meses, ou at a prxima viagem dela. Talvez isso no acontecesse, talvez sua irmzinha criasse juzo, pegasse o "fundo" que os pais lhe deixaram para terminar os estudos, escolhesse uma profisso e cuidasse bem dos filhos.
Ele saiu do banheiro e chegou perto da cama. Procurou se concentrar na procura das chaves e em pr a carteira no bolso. Mas sua ateno mudou-se para a mulher em sua cama. Ela tivera filhos? Mac achava que no, pois no constava do currculo, e Paris dissera que sua experincia limitara-se a cuidar de crianas por uma noite, e no em criar os prprios filhos.
Mac no entendia por que a contratara. Mas Paris apaixonara-se pelos bebs imediatamente. E ele achou que podia confiar nela em relao s crianas.
Saiu do quarto, fechou a porta com cuidado para que Simon no acordasse. Surpreendeu-se por ter se preocupado com isso. Depois que os sobrinhos fossem embora, ele voltaria aos velhos hbitos. Aprendera a duras penas o que era melhor para si.
Apanhou o palet e foi pegar o carro, fechando a casa antes de sair.
Paris acordou sobressaltada, com uma pequena mo encostada em seu rosto. Abriu os olhos assustada mas relaxou quando viu que era apenas Simon que estava em cima das cobertas, a cabea junto  dela e os braos esparramados. Ao menos no fizera como a irm que lhe apertara as narinas.
Em todos os meses desde que sara de Hadley, Paris adquirira o hbito de ficar de olhos fechados por alguns minutos at se lembrar exatamente de onde estava.
No precisara fazer isso naquela manh por causa das crianas na cama ao lado dela, e por causa do cheiro espalhado no ar. A loo ps-barba de Mac. Nunca sentira aquele aroma, mas no podia ser outra coisa.
Ele j devia ter tomado banho e ido para o trabalho. Paris sentiu um qu de serenidade ao pensar que ele talvez os observara, mesmo depois de ter dito que no tinha inteno de se envolver com os sobrinhos.
Mesmo sabendo que no encontraria mais Mac na casa, Paris levantou-se da cama com cuidado para no perturbar o sono de Simon. Com sorte teria tempo de tomar banho no outro banheiro do corredor e de se vestir antes de as crianas acordarem.
Dez minutos mais tarde descobriu que a sorte no estava de seu lado, quando a porta do banheiro se abriu. Ela tirou o xampu dos olhos e viu atravs da cortina do chuveiro Elly levando Simon pela mo.
	Pris?  Elly perguntou assustada.   a que voc est?
	. Esperem no corredor que estarei com vocs em poucos minutos.
Elly sacudiu a cabea.
 Ns esperamos aqui.  Ela sentou-se no tapete do banheiro e arrastou o irmo consigo.
Espantada, Paris observou-os. Pareciam decididos a ficar l. Nua e pingando gua, ela no teve outro remdio seno tomar um banho rpido e sair do chuveiro.
Pronta, comeou a vestir as crianas e percebeu que uma menina de quatro anos tinha mais opinies sobre moda do que se poderia esperar. As roupas dela tinham de combinar com os sapatos que por sua vez precisavam ser amarrados com dois ns para no sarem dos ps. Depois Elly supervisionou Paris o tempo todo enquanto ela vestia Simon.
Quando terminou, Paris deu um suspiro. No tivera tempo de passar um batom, tampouco de secar os cabelos. Foi  cozinha a fim de preparar o caf da manh dos dois. Olhando ao redor, no enxergou evidncia de que Mac comera antes de sair, e ficou triste com isso. Mas no falaria com ele sobre o caso. Para o prximo dia, assaria alguns pezinhos e os deixaria em lugar onde ele pudesse encontr-las. No que Mac lhe agradecesse pelo esforo, ela pensou ao sentar-se  mesa para tomar seu caf. Mac parecia determinado a no aceitar nada vindo dela.
	Onde est tio Mac?  Elly perguntou de repente, enquanto tentava espetar com o garfo um pedao de panqueca.
	Ele foi trabalhar  Paris respondeu.
	Como papai?
	Sim, como papai.
	 o que fazem todos os papais  disse a menina, com ares de perita.  Eles vo trabalhar e as mames e os filhos ficam em casa.
	Voc tem assistido tev?  Paris perguntou, rindo.
	Como?
	Onde ouviu que os papais vo trabalhar e o resto da famlia fica em casa?
	Sarah me contou. Ela tem sete anos. Era minha amiga na outra casa onde eu morava com minha mame. Minha mame foi ver os elefantes, e quando ela voltar vai me levar e tambm Simon para ver os elefantes.  E a menina continuou:  Sarah disse que os papais trabalham. E o que tio Mac est fazendo, mas ele no  na verdade um papai.
	Bem, no, ele no   Paris confirmou, se perguntando para onde esse assunto as levaria.
	Ele podia aprender a ser um papai. Porque ele sabe ler.
	O que voc quer dizer com isso, Elly?
	Sarah falou que a professora dela disse que, se voc sabe ler, pode aprender qualquer coisa. E tio Mac sabe ler  ela repetiu.
 Sim, ele sabe  Paris confirmou, rindo. Satisfeita, Elly sentou-se melhor na cadeira e terminou de comer.
Lembrando-se de sua conversa com Mac na noite da vspera, Paris concluiu que seria necessrio algo mais do que a habilidade de ler para fazer dele um bom papai, mesmo sendo um papai temporrio.
Contudo, valia a pena pensar no caso. Ela fora criada acreditando que era errado tentar mudar uma pessoa, que era improdutivo e que seria um caso de intromisso na vida alheia. No tentara mudar Keith, de certo deveria. E as fraquezas dele o arruinaram.
Se ela nem ao menos tentara mudar um homem acomodado como Keith, Paris caoou de si mesma, como poderia ter esperanas de mudar um como Mac? Pensou em como ele a olhava, como a assediava, como pusera barreiras de teimosia quando ela sugerira que precisava passar algum tempo com a sobrinha e o sobrinho. Observando os solenes olhos de Elly e o suave sorriso de Simon, desejou que Mac procurasse ficar um pouco mais perto deles. Se o que dissera sobre a irm era verdade, e Paris no tinha razo para duvidar, ento o tio seria a nica influncia estvel na vida daquelas crianas. Precisavam dele em suas vidas da mesma forma como Mac precisava dos sobrinhos. Mac telefonou e surpreendeu-a. Quando Paris ouviu a voz dele, seu corao palpitou mais rpido. Atribuindo essa sua reao  ansiedade por causa do emprego, ignorou o sucedido.
 Como vai tudo por a?  Mac perguntou e fez uma pausa, como se ele prprio achasse esquisito estar telefonando.
O que deveria ela responder?, Paris refletiu. Talvez dizer que estamos andando por uma casa vazia como trs gros de ervilha? Ou talvez: Que estamos de mos dadas andando pelos cmodos na ponta dos ps para impedir que se formem ecos? No, nenhuma dessas respostas daria uma idia do que ela pensava.
	Sra. Barbour?  Mac disse com preocupao.  Paris?
	Tudo bem  ela finalmente respondeu.  Tudo vai bem. As crianas esto timas e eu...
	Deixe-me adivinhar  Mac interrompeu-a.  Voc tambm est tima.
	Sim, estou. Estou muito bem.
	Que bom. Nada de problemas?
Paris ainda no sabia o que dizer, por isso descreveu tudo o que acontecera naquela manh, o que a fez parecer uma idiota obsessiva.
	E agora os dois esto assistindo a um programa educativo na tev  ela enfim terminou.  Mas apenas por uma hora pois no acho que televiso seja bom divertimento para crianas.
	Muito bem. Parece-me que voc tem tudo sob controle.
	Sim, tenho  Paris respondeu com mais confiana do que realmente possua.  Tem alguma instruo especial para me dar?
	No, no, faa o que achar melhor.
	Sim, farei  Paris respondeu.
 Muito bem. Voltarei ao trabalho agora. At logo.
Paris desligou o telefone sentindo que tiveram uma conversa que comeara e terminara sem muito sentido, mas que de qualquer modo a deixara com a sensao de que se iniciava um elo entre ele e os sobrinhos.
Paris no podia se lembrar de ter sido objeto de tanta curiosidade, ela pensou, enquanto olhava para as pessoas do pequeno supermercado.
Hostilidade talvez, no curiosidade.
Quando entrou com as crianas, algumas pessoas a olharam mas no disseram nada. Ento, talvez por invisvel comunicao, todos no lugar fizeram o mesmo e todos viraram a cabea para v-los melhor.
Nervosa, ela segurou a mo das crianas e comeou a cumprimentar com um sorriso os que os olhavam.
 Bom dia  chegou a falar, mas no houve resposta.
Enfim, uma senhora de meia-idade respondeu ao cumprimento e olhou-a da cabea aos ps, com curiosidade.
 Bom dia  respondeu.  Meu nome  Marva Dexter, e o seu?
Paris sorriu para a mulher, achando que ela era excepcionalmente socivel ou incrivelmente intrometida.
 Como vai?  disse Paris, ignorando a sugesto para que ela dissesse o prprio nome.
Paris crescera numa cidade pequena. Conhecera pessoas curiosas e amigas, mas havia algo esquisito na atmosfera daquele mercado.
Afastando-se da curiosidade das demais freguesas, ela pegou um carrinho, colocou Simon e Elly dentro, e comeou a procurar as fraldas descartveis que esquecera de comprar quando fora a Alban, na vspera.
Apesar do que Mac dissera, aquele lugar devia ter fraldas em estoque, mesmo que os fregueses nunca tivessem visto uma pessoa desconhecida antes.
Havia dois homens no estacionamento, conversando. Paris concluiu ser esse o modo como passavam o dia. Fitaram-na com insistncia, e Paris achou que ela seria a novidade do dia para muitos.
Esqueceu-se depressa dos dois homens e das mulheres e ps-se a observar tudo com interesse. Sentiu-se como se tivesse voltado cinquenta anos atrs no tempo. O assoalho do mercado era de madeira, gasto pela infinidade de ps que passavam sobre ele. Os balces tinham tampo de ardsia com arremates em cromo, que brilhava como se houvesse sido polido na vspera. Divertindo-se, Paris se perguntava se o proprietrio usava avental de aougueiro e chapu de papel.
Ela empurrava o carrinho procurando lugares interessantes para as crianas. Quando fez a curva seguinte, surpreendeu-se ao descobrir que o grupo de compradoras que a perturbara continuava no mesmo lugar, observando-a com interesse.
Achando que aquele comportamento era estranho, Paris resolveu comprar as fraldas e ir embora.
Ela devia ter dado sinal de que ia se retirar porque um dos homens do estacionamento foi ao encontro dela, bloqueando-lhe a passagem.
	A senhora  a nova esposa?  ele perguntou.
	Como?  Paris perguntou.
	Esposa do rei da colina l em cima?  ele disse, apontando na direo da casa de Mac.   a nova mulher dele? Esses so os filhos?
Rei da colina?
Paris no tinha idia do que aquele homem falava, e no tinha interesse em saber. Ficou entre ele e as crianas, para proteg-las. Com os olhos arregalados de apreenso, Elly no desviava o olhar do rosto vermelho do homem.
	Com licena  Paris sussurrou. O homem estendeu a mo, dizendo:
	Por que tanta pressa?
	Floyd, voc vai se arrepender do que est fazendo.
 Uma voz furiosa se fez ouvir.
Uma mulher apareceu.
Paris ficou boquiaberta. Aquela era uma mulher com M maisculo. Alta, porte de esttua, tinha cabelos negros, ondulados, e rosto de traos firmes. Usava jeans e camiseta vermelha de mangas compridas. Parou diante do homem que chamara de Floyd e colocou a mo na cintura numa pose desafiadora.
Floyd com certeza esquecera-se do que iria dizer a Paris, porque cumprimentou a recm-chegada:
 Al, Becky.
 Est aqui para fazer compras?  ela perguntou a Floyd. E, dirigindo-se  multido que se aglomerava:
 Fico muito contente em saber que pretendem comprar em minha loja, se  o que vieram fazer, mas no bloqueiem a passagem.
A multido afastou-se porm os dois homens continuaram l. Irritada, Becky prosseguiu:
	Floyd, voc e Benny no tm um carro que precisa ser polido com suas barrigas cheias de cerveja?
	Ns estamos apenas...  Floyd ia dizendo.
	Saindo.
O homem de nome Benny enfim se deu conta de que Becky no os desejava l. Agarrou a manga da camisa de Floyd e puxou-o para a sada, resmungando.
Quando a porta se fechou aps a retirada dos dois homens, Becky dirigiu-se a Paris.
 Perdoe Floyd e Benny. Entraram enquanto o segurana estava distrado.
Paris riu e estendeu a mo a ela, apresentando-se:
	Sou Paris Barbour.
	E eu sou Becky Ronson. Soube de voc porque Mac me telefonou ontem  noite dizendo que encontrara uma governanta.
	Quer dizer que conhece Mac?  Paris perguntou.
	Claro, durante toda minha vida. A irm dele Sheila e eu fomos muito amigas at ela se mudar para San Francisco e se estabelecer l. Eu fiquei por aqui.
Becky olhou para as crianas e sua feio suavizou-se.
	Estas so de Sheila, no so?  ela disse.  Elly se parece muito com a me.
	As pessoas dizem isso o tempo todo  Elly falou, provocando o riso em ambas as mulheres.  Pris e tio Mac esto tomando conta de ns at mame voltar da visita aos elefantes.
	Isso  muito bom  comentou Becky.  Aposto que voc vai se divertir muito na casa de tio Mac.
	Pode ser  Elly respondeu, muito sria.  No sei ainda.
Como para terminar a conversa, ela desviou o olhar das duas mulheres, passou um brao em volta do irmo, e com o outro agarrou bem junto ao peito seu coelhinho de pelcia.
	O que... Floyd quis dizer? Por que achou que eu era a "nova mulher" de Mac e as crianas filhos de Mac?  Paris perguntou a Becky.
	Porque Floyd  um idiota e no cuida da prpria vida. Todas essas outras pessoas so curiosas, e no vem Mac h muito tempo.  Becky ps as mos na cintura.  Mas, o que veio fazer aqui hoje? Talvez eu possa ajud-la a encontrar o que precisa.
Surpresa com a amabilidade da mulher, Paris respondeu aps segundos que estava procurando fraldas para Simon. Becky ajudou-a a achar e, depois de pagar pelas fraldas, Paris e as crianas tomaram logo o caminho da sada. Olhares curiosos os acompanharam e Paris concluiu que havia mais do que simples curiosidade referente ao recluso vizinho. A noitinha, Elly e Simon morriam de sono mas lutavam para se manter acordados a fim de ver tio Mac. Paris leu umas histrias para eles e os ps na cama. Assou alguns pes e foi  sala a fim de ler o jornal.
De l, ouviria Mac entrar. Mas adormeceu antes disso.
Havia luzes acesas na casa, Mac notou desde a estrada. No podia se lembrar da ltima vez em que vira a casa iluminada ao chegar do trabalho. Fazendo fora para no se acostumar com isso por ser apenas um hbito temporrio, parou a van em frente  garagem e se espreguiou antes de sair do carro. Massageou os braos, doloridos de tanto carregar tbuas e de preg-las no devido lugar.
Mais alguns meses de trabalho como aquele e pagaria quase todas as suas dvidas. Poderia recomear o prprio negcio, reconstruir sua reputao. Sua vida, enfim. Alegrou-se por saber que dali por diante teria de pensar apenas em si.
Abriu a porta dos fundos e sentiu um cheiro diferente: o dos pes h pouco assados. Ficou com a boca cheia d'gua. Olhou  volta e viu a assadeira com os pes em cima do fogo. Incapaz de resistir, tirou uma faca da gaveta e pegou um pozinho. Encheu um copo de leite e bebeu tudo quase num gole s. Nada jamais lhe parecera to delicioso. Comeu mais um pozinho e tomou mais um copo de leite. Jogou fora os hambrgueres que trouxera para seu jantar.
Com um suspiro de satisfao debruou-se sobre o balco e pensou, arrependido, que provavelmente comera o desjejum de seus sobrinhos; mas havia bastante, e ele estava satisfeito demais para se sentir culpado.
Lavou as mos, limpou o acar e a canela dos lbios, e pensou na mulher que fizera 05 pes.
Na verdade, ela no sara de seus pensamentos o dia inteiro. Distrara-se um pouco enquanto martelava e serrava, mas no gostara daquilo. Detestava precisar de distraes para no pensar na nova bab.
Entrou na sala de jantar e apurou os ouvidos. Depois se perguntou por que ficara to desapontado ao constatar que s havia silncio. No queria mesmo se envolver com os sobrinhos, pois assim seria mais fcil quando Sheila chegasse e os levasse embora.
Com esse pensamento martelando em sua cabea entrou na sala e viu Paris toda encolhida, dormindo na cadeira. Um livro sobre seus joelhos quase caa no cho. Mac apanhou-o. Paris devia ter sentido qualquer coisa pois colocou a mo sobre o livro no mesmo instante em que Mac ainda o segurava.
 Oh!  voc, Mac?  Sentiu-se aliviada.  No o ouvi entrar. Que horas so?
Por estar ocupado observando o modo como Paris acordara de repente, com expresso de medo no rosto, a resposta dele demorou a vir. Quando se deu conta de que a fitava com insistncia, franziu a testa e deu um passo atrs.
 Tarde : ele enfim disse, com voz mais seca do que pretendera.  Voc devia estar na cama.
Ela bocejou, levantou-se e disse:
	Tem razo. Elly e Simon tentaram esperar por voc acordados, mas estavam cansados demais. Tiveram um dia cheio.
	No deixe que fiquem acordados. Nunca sei a que horas vou chegar.
Ele viu uma fasca de desafio surgir nos olhos que havia pouco estavam sonolentos, porm Paris com certeza reconsiderara o que ia dizer e no respondeu.
 O que fizeram hoje para eles ficarem to cansados?  Mac perguntou.
Paris pegou o livro que estivera lendo e a caneta que cara no cho e lhe contou sobre um dia passado andando pela casa, distraindo-se com alguns brinquedos recentemente adquiridos, e fazendo uma caminhada da casa  estrada.
 Em seguida, depois do almoo, fomos a Cliffside comprar mais fraldas  ela continuou.  Encontramos algumas pessoas que pareciam muito... curiosas e oh!
Sem refletir, Mac agarrou-a pelo ombro. Assustada, Paris ficou fria. Os olhos dele faiscavam.
	O que voc disse?  perguntou.
	Eu... disse que tnhamos ido a Cliffside.
	Pensei que a tivesse prevenido para no ir l.  As palavras dele foram cortantes como a lmina de uma faca.

CAPTULO IV

Paris fitou-o, achando que ele estava louco.  No, voc no me preveniu. Ontem me disse para ir fazer compras em Alban, mas nunca pensei que Cliffside fosse um local proibido. Esta manh, no telefone, falou-me para fazer o que eu achasse melhor.
	Isso no inclui ir a Cliffside  ele declarou com voz autoritria.
	Bem, posso lhe perguntar por qu?
	No!  Sentindo-se ridculo, Mac tirou a mo do ombro dela.  Apenas  melhor que no v l  Mac aconselhou.
	Nem para comprar no mercado de Becky Ronson? No lhe parece estar sendo um tanto extremista?
	No, no estou.
	No entendo por que. Ela parece ser amiga sua, e...
	Becky entenderia.
	E eu gostaria de entender tambm.  Paris encarou-o, frustrada.
	Voc no precisa entender. Apenas precisa obedecer.
 Tudo bem, sir.  E ela comeou a sair da sala. Mac foi atrs e Paris ficou aliviada. timo, por certo achava que lhe devia uma explicao. Mas ele parou junto  janela, o olhar duro. Na ocasio, Mac tentara explicar a todos o que acontecera quando o mundo explodira em seu rosto dois anos atrs, mas ningum quisera ouvi-lo. E eram amigos, pessoas que o conheceram a vida inteira, e assim mesmo recusaram ouvir a verdade. Por que haveria de pensar que aquela recm-chegada escutaria?
J lhe dera todas as explicaes necessrias.
Paris foi ao prprio quarto, andou de um lado para o outro, e voltou  sala. "Rei da colina", assim Floyd o chamara. "Senhor da manso" seria mais apropriado. L estava Mac ainda na janela, com as mos no bolso, olhando para a escurido atravs das vidraas.
	Por que no se explica?  Paris lhe perguntou.
	Qual de ns dois  o empregador aqui, afinal?
	Voc est enganado quanto ao tipo de pessoa que sou, se pensa que pode dizer qualquer dessas coisas sem me provocar.
	E no  o que uma governanta deve fazer? Obedecer cegamente?
 Como posso saber?  meu primeiro emprego, lembra-se?
	E est criando uma confuso. Levar duas crianas onde especificamente recomendei que no...
	No me deu ordens especficas  Paris insistiu.  Apenas disse que eu fizesse as compras do ms em Alban. No podia entender que isso queria dizer que no poderia ir a Cliffside comprar uma simples caixa de fraldas.
	Compre fraldas, e qualquer outra coisa que necessite, em Alban  Mac respondeu, pronunciando cada slaba bem claramente.  Como no sabe muito sobre esta comunidade, por que no obedece ordens at aprender?
	Ordens?  Paris sentiu-se insultada com o tom de voz dele.  No me lembro de ter recebido ordens. Apenas me lembro de que me foi pedido que alimentasse Elly e Simon quando tiverem fome, que cuidasse dos dois de um modo geral, como um adulto de bom senso o faria.
	O que voc no fez levando-os a Cliffside hoje.
A acusao de Mac a irritou, e teve vontade de protestar, mas engoliu suas palavras com medo de se arrepender mais tarde. Para se acalmar, respirou fundo. No podia se lembrar de algum dia ter se aborrecido tanto com uma pessoa, por ser essa pessoa to teimosa. Raramente discutira com Keith, mesmo que ele se ocupasse o tempo todo jogando dinheiro fora. Keith havia sido difcil, mas Mac era impossvel.
	Voc est arriscando perder suas duas semanas de experincia  Mac ameaou-a.
	Mesmo?
	Sim. Se no consegue obedecer ordens, ento no  a pessoa adequada para este emprego. No devia t-la contratado uma vez que no tem experincia como governanta...
	Se sou esse traste que voc insinua, ento o que  isto?  Paris limpou a canela e o acar do queixo dele com o polegar.
No sabia onde encontrara coragem para fazer aquilo. Mas enfrentara o olhar furioso de Mac que ia do rosto dela ao polegar cheio de acar, e de volta ao rosto. A, Mac disse:
 Voc faz po muito bem. Porm isso no significa que  boa para tudo o mais, e que teria permisso de arrastar duas crianas a Cliffside quando poderiam...
Ele parou de falar, com o queixo trmulo.
Paris esperou um pouco. Quando viu que Mac no continuava, perguntou:
	Poderiam o qu? Apenas ser adoradas por se tratar de crianas lindas? Ser capazes de encontrar companheiros com quem brincar? O qu?
	Elly e Simon poderiam ficar assustados.  Mac encarou-a, desafiando-a a discutir.
Paris abriu a boca para falar, depois fechou-a de novo pensando em Floyd. Ele lhe parecera inofensivo, apenas falava demais. Contudo, Elly se assustara com o homem. Mas Mac no sabia de nada, portanto tinha outra coisa em mente.
	Por que ficariam assustados?
	Sofreram muitas mudanas nestes ltimos dias, no precisam ser arrastados a uma cidade onde todos os olhariam, fazendo-os sentirem-se pouco  vontade.
No, Paris pensou, Mac estava escondendo qualquer coisa. Ela j suspeitara disso, mas agora tinha certeza. Quisera perguntar-lhe o que havia de errado, porm achou que Mac no diria. Um dos dois tinha de parar de falar, e Paris concluiu que seria ela. Afinal, Mac era o chefe. Mesmo com pouca experincia, sabia ser m idia discutir com quem assinava seus cheques de pagamento no fim do ms.
 Muito bem  ela disse. Contudo, embora achando que no deveria discutir com seu chefe, estava desistindo muito facilmente, tal qual sempre fizera com Keith.  Mas voc precisa levar em considerao que, se os dois ficarem aqui por longo tempo, vo precisar de amigos na cidade. Seria ridculo ir at Alban para isso.
	Se amigos so assim to necessrios, posso reconsiderar os fatos. Agora, um tem ao outro e ambos tm voc. No acha que seu trabalho deveria incluir ser companheira de brinquedos para eles?
	No sei se minha companhia seria suficiente  Paris respondeu.  Que acha da sua?  ela perguntou.
	A minha o qu?
	No quer voltar a casa mais cedo e brincar com seus sobrinhos?
	No conversamos sobre isso j? Preciso trabalhar. Se eu no trabalhar ningum come nesta casa.
	Tudo bem  ela concordou, embora no achasse aquilo. Esperava que a situao mudasse e que tivesse liberdade de levar as crianas ao parquinho. Talvez Mac lhe contasse um dia por que motivo era to inflexvel quanto a permitir a ida dos sobrinhos a Cliffside.
Disse "boa noite" e foi para seu quarto.
	Paris!  Mac chamou-a. Ela olhou para trs.
	Sim?
	Se precisar de ajuda durante a noite, acorde-me.
	No penso ser necessrio. Esto acostumados comigo agora e acho que, se ficarem com medo, iro para minha cama ou me deixaro dormir no quarto deles. No precisaremos perturbar voc.
	Muito bem, ento. Boa-noite.
Paris retirou-se sentindo-se triste, achando que provavelmente as crianas no o veriam muito se ele continuasse com a prtica de sair cedo e chegar em casa tarde  noite. No sabia se estava mais triste pelas crianas ou por ela mesma. No havia razo para se sentir triste por Mac, contudo. Era sua escolha, afinal.
Paris ficou sozinha com as crianas durante uma semana e, conforme imaginara, raramente vira Mac. Elly perguntava pelo tio frequentemente, e Paris inventava desculpas para sua ausncia. Mas enfim ficara furiosa consigo mesma por fazer tal coisa. Sabia que Mac nunca aparecia porque trabalhava at tarde da noite, mas isso no significava que tinha de justificar a negligncia dele.
Quando preparava o jantar para si e para as crianas Paris fazia um prato para Mac tambm e deixava-o na geladeira. Nos trs primeiros dias encontrara-o intocado pela manh. Mas na quarta noite acordou sentindo o aroma das almndegas e do molho de cogumelos sendo esquentados no forno microondas e sorriu consigo mesma com um qu de presuno. Talvez no estivesse fazendo progresso em aproximar o tio dos sobrinhos... afinal, como isso poderia acontecer se ele estava to raramente em casa? Porm, despertara em Mac o interesse por sua comida e quem sabe ele desistisse de comer fora voltando a casa a fim de jantar com Elly e Simon.
O relacionamento entre os dois irmos e ela crescia dia-a-dia. Elly falava-lhe sobre a me e Paris escondia sua raiva a respeito de Sheila e ouvia a menina atentamente. Prestava ateno nas coisas que ela gostava de fazer com a me, como escovar-lhe os cabelos e pente-los. Por isso uma tarde permitiu que Elly escovasse seus cabelos e fizesse algum penteado, prendendo-o com uma infinidade de pequenas fivelas.
Paris olhava o tempo todo num pequeno espelho de mo, achando-se ridcula. Um dia, enquanto Elly se ocupava desse novo trabalho, Simon subiu no colo dela com seu inseparvel livro e pediu-lhe que lesse uma histria que por sinal ela j lera uma dzia de vezes.
Lutando para no bocejar, decidiu ir  biblioteca pblica a fim de providenciar outros livros.
Quando Elly se satisfez com seu trabalho, e Paris estava exausta de ficar sentada no cho, ps as duas crianas em frente a tev para assistir a um bom programa. Foi  cozinha preparar o jantar. Esperava ter alguns minutos a fim de desmanchar o penteado que Elly fizera e voltar ao seu aspecto normal. Porm, com o fim de no desapontar a menina, resolveu aguardar at que os dois fossem dormir. Afinal, quem iria v-la seno as crianas?
Enrolava os pedaos de frango em farinha e num molho de ervas para fritar, quando a porta dos fundos se abriu e Mac entrou.
Surpresa, cobriu os cabelos com as mos, mas s tarde demais lembrou-se de que estavam cobertas de farinha.
	Oh!  exclamou ao se dar conta do que fizera.
	Nossa!  Mac exclamou, parando de repente. Caiu na gargalhada.  Que papel est pretendendo representar? De palhao?
	Nenhum. Elly quis arrumar meus cabelos e eu deixei. Ela disse que costumava pentear a me o tempo todo.
	No acredito  Mac protestou.  Sheila jamais permitiria que Elly fizesse isso com ela.
Paris lavou as mos na pia. Depois foi ao banheiro a fim de retirar os pedaos de farinha que ficaram grudados em seus cabelos. Debruava-se na pia quando ouviu os passos de Mac bem atrs dela.
 Venha c, deixe-me ajud-la  ele falou, pondo as mos nos ombros de Paris e girando-a como se ela no fosse maior do que Elly.
Pela segunda vez, no espao de cinco minutos, ele a surpreendera. Ficou bem quieta enquanto Mac tirava, de um a um, os pedacinhos de farinha de seus cabelos.
Mac estava bem perto dela, apesar de ter trabalhado o dia inteiro com aquela camisa, tinha um aroma to agradvel, to masculino, que Paris ficou com o louco desejo de se deitar ao lado dele e nunca mais dormir sozinha.
	Estou puxando seus cabelos?  Mac perguntou.
	No, oh, no!
	Pronto! Tudo feito  Mac disse, e ela deu um suspiro profundo, grata pelo alvio da tenso.
	Muito obrigada.  Paris voltou  cozinha.  Chegou cedo hoje  comentou, lavando as mos mais uma vez.
	Sa mais cedo porque precisei ver um negcio em Cliffside.
	Pensei que voc nunca fosse l.
	No vou, a menos que seja inevitvel. E infelizmente foi o que aconteceu hoje. Negcios.  Ele abriu a geladeira e pegou uma lata de soda.
Paris morreu de vontade de lhe perguntar que tipo de negcios o levaria  cidade que ele detestava tanto, mas sabia que provavelmente isso provocaria uma discusso. Contentou-se em ver que a comida dela o agradava. De fato, Mac estava se alimentando melhor. Perdera aquela palidez e as calas no lhe escorregavam tanto pelos quadris. Ficou contente por o estar auxiliando, ele querendo ou no.
O som de passos os alertou que Elly se aproximava. De certo a menina ouvira o rudo da lata de soda quando Mac a abrira e quis dividir o contedo com o tio. Simon a seguia, como sempre.
 Tio Mac! J chegou!  ela disse, e jogou-se nos braos dele.  Achamos que no amos ver voc.
timo, Paris pensou, escondendo um sorriso. Elly dissera exatamente o que ela vinha pensando, mas de maneira muito mais cativante.
E a menina continuou:
	Simon e eu tivemos saudade de voc.  Envolveu-lhe o pescoo com os braos, encostando o rosto no dele.
	Eu tive saudade de vocs tambm  Mac disse.  O que fizeram hoje?
	Eu arrumei os cabelos de Pris. Ela no ficou linda?
	Oh, sim, ficou. Linda  a palavra que eu devia ter usado para esse penteado. O que mais fizeram hoje, Elly?
	S isso. Pris s deixa a gente assistir um pouco de tev. Ela diz que demais no  bom,  como chocolate demais. Mas isso  bobagem dela porque ns no podemos comer a tev,
	No, vocs no podem  Mac concordou.  Chocolate demais no  bom?  ele perguntou, olhando para Paris.
	Bem, no  muito nutritivo.
Simon foi para perto do tio. Ergueu os braos, pedindo colo.
Paris se perguntava se Mac se dera conta de que as crianas estavam assim acolhedoras porque se sentiam seguras no ambiente estvel que a presena dele lhes proporcionava.
Mac teve de se sentar em uma das cadeiras da cozinha para pr Elly num joelho e Simon no outro. Apesar de no abraar os dois com fora como seria mais normal, Paris achou que ele fizera um tremendo progresso apenas carregando-os.
	O que mais voc fez com eles?  Mac perguntou a Paris.
	Andamos bastante pela redondeza, lemos histrias, e eu comecei a ensinar a Elly a alfabeto e nmeros.
	Posso contar  Elly disse e ps-se a contar, voltando atrs vrias vezes antes de chegar ao dez.
A menina olhou para o tio esperando um elogio, porm Mac dirigiu-lhe um esboo de sorriso que fez Paris ter vontade de rir. Lembrou-se da gravura de um dos livros de Simon onde um tigre feroz parecia subjugado pela vista de uma borboleta que pousara em sua pata.
	Eu no sabia que eles dois seriam to infelizes morando aqui sem amigos  Mac disse lentamente.
	Mas no esto sofrendo  Paris respondeu, querendo, contudo, saber a causa dessa mudana de atitude.
	No, mas concordo que precisam de amigos. Acho que deve haver algum tipo de grupos infantis organizados em Alban.
	Com certeza  Paris confirmou.  A maioria das cidades tem essas coisas no parque local ou no centro comunitrio.
	Pergunte a Becky sobre isso.
	Becky?  Paris repetiu, com cuidado.
	Ela sabe de tudo o que est acontecendo ao longo da costa. Pertence ao conselho da cidade de Cliffside. Ela saber.
	O conselho da cidade?
Paris pensou sobre os membros do conselho em Hadley, duas senhoras que faziam tric durante as reunies e dois fazendeiros locais, cada um preocupado com sua prpria agenda. Se Becky fazia parte do conselho, talvez ela tivesse oportunidade de saber qual o motivo que fazia Mac no gostar da cidade. Agora Paris estava mais curiosa que nunca e Becky a ajudaria a satisfazer essa curiosidade.
 Sim  disse Mac, no entendendo a razo do silncio de Paris.  At um local pequeno como Cliffside tem um conselho, embora Becky seja a nica pessoa de bom senso entre os membros desse conselho.
Apesar de Paris querer ouvir mais sobre o assunto, apenas respondeu:
	Entendo.
	Enfim, ligue para Becky se acha que Elly e Simon precisam de contato com outras crianas. O nmero do telefone est na minha lista.
O tom indiferente da voz de Mac a fez procurar o olhar dele, gelado. O tom que usara era de indiferena. Quase de... resignao, Paris concluiu. Uma onda de proteo varreu-lhe a alma, mas no podia dizer se era pelas crianas ou por ele.
	Mas voc ainda prefere que eu no as leve a Cliffside?  ela perguntou.
	No se considere uma prisioneira aqui, Paris  ele retrucou friamente.
Paris no podia pensar em uma resposta adequada porque, de certa maneira, ela e as crianas eram mesmo prisioneiras das circunstncias. S que Mac parecia saber, mas no explicaria a razo.
 No quero que as crianas deixem de ter aquilo de que precisam  ele disse, como se as palavras tivessem sido arrancadas de sua boca. Paris esperou um pouco, e quando o silncio se prolongou por demais, Mac continuou:  Talvez uma curta visita a Cliffside...
Paris espantou-se com a mudana de idia, mas antes que ele voltasse atrs, bem depressa sugeriu:
 Que tal uma visita  biblioteca pblica para adquirirmos novos livros? Se eu tiver de ler estes livros para Simon de novo, ficarei louca.
Mac no sorriu ao comentrio de Paris, mas apertou as plpebras ao dizer, de maneira neutra:
 Tudo bem. Faa isso.  E dando-lhe as costas:  Vou tomar um banho antes do jantar.
Ele saiu da cozinha deixando Elly muito desapontada. Paris teve pena da menina. Por alguns instantes lhe parecera que ela havia conquistado enfim o corao do tio, mas o homem se fechara outra vez. Paris sabia que tinha algo a ver com a deciso de ele ter permitido que os sobrinhos fossem a Cliffside, e quase se arrependia agora por ter insistido.
Com o fim de consolar Elly, ela lhe pediu que arrumasse a mesa para os quatro, a primeira refeio que faziam juntos desde que Paris chegara. Considerou isso um progresso.
Achou que deveria estar contente pelo fato de Mac ter concordado que ela encontrasse amiguinhos para Elly e Simon, e de ter permitido que os levasse  biblioteca. Mas vendo o que acontecera com Mac, comeava a se perguntar se fizera a coisa certa, afinal de contas.

CAPTULO V

Apesar de saber que de certa maneira forara Mac, Paris levou as crianas  biblioteca de Cliffside onde os olhos de Simon se arregalaram de excitao ao ver tantos livros. Depois de ter feito alguns telefonemas para se certificar de que Paris na verdade morava na rea e de que no era uma estranha na cidade tentando fugir com alguns livros da biblioteca pblica, a bibliotecria responsvel permitira que ela escolhesse tantos livros quantos ela, Elly e Simon pudessem carregar.
Para si, Paris encontrou alguns compndios sobre o desenvolvimento das crianas e cuidados especiais, que a bibliotecria lhe sugerira. Paris sabia que a mulher estava morrendo de vontade de perguntar sobre Elly e Simon, mas no era suficientemente rude para fazer isso na frente deles.
Com a desagradvel idia de que as pessoas de Cliffside a faziam lembrar-se dos habitantes bisbilhoteiros de sua cidade natal, Paris acompanhou de perto Elly e Simon at o carro. Colocou os livros no assento traseiro com exceo do que Simon levava nas mos. Quando ia pr os dois no carro, Elly gritou:
 Balanos! Venha, Simon. Vamos nos balanar.
Antes que Paris pudesse impedi-los, Elly j corria para o local.
 Espere, Elly!  ela gritou e correu atrs da menina. No caminho, agarrou Simon.
Ele tambm gritava:
	Balanos! Balanos!
	Olhe, Pris, voc pode nos empurrar, no pode?  Elly pediu, subindo num dos balanos e segurando nas correntes laterais. Elly no se esqueceu de chamar o irmo:  Vamos, Simon! Venha.
Simon correu ao encontro dela. Agarrou o primeiro balano a seu alcance e Paris preparou-se para ajud-lo a subir.
Momentaneamente ficou apreensiva. Mac recomendara uma visita breve e isso depois de muita discusso e desentendimentos. No autorizara um passeio pelo parque. A primeira reao dela foi chamar as crianas e voltar a casa, mas Simon estava to ansioso para se balanar, tanto que at derrubara seu querido livro no cho, e Elly to entusiasmada, que no quis desapontar nenhum dos dois. Com certeza Mac entenderia.
Ela colocou Simon num balano onde havia cordas apropriadas para crianas pequenas. No quis desafiar Mac, longe disso.
Satisfeita com sua lgica, Paris concentrou-se em brincar com os dois. Empurrou ambos os balanos at seus braos doerem. Mas no podia comparar um cansao fsico satisfeito, com o vazio que conhecera nos anos de seu casamento com Keith.
Talvez se eles tivessem tido filhos, Paris pensou enquanto colocava Elly e Simon nos cavalinhos de pau, empurrando ora um, ora outro, as coisas teriam sido diferentes. Talvez Keith no gastasse tanto dinheiro sabendo que estava prejudicando os filhos.
Talvez no. Afinal, Keith no ouvira quando ela o avisara que estava arriscando o futuro de ambos. O sentido de perda e tristeza que pesara sobre ela durante muitos meses no lhe parecia to devastador agora que se levantava ao nascer do sol, cuidando de duas crianas.
Vagara sem destino durante um ano, deixando para trs tudo o que conhecera, preparando-se para iniciar a procura de empregos que nunca imaginara precisar ter, tentando se recuperar da perda do marido, da desiluso e do desaponto que sofrera. Nada do que fizera lhe dera o consolo e a alegria que sentia cuidando daqueles pequeninos.
Aps alguns minutos nos cavalinhos eles quiseram voltar ao divertimento favorito, os balanos.
 Mais alto, Pris, mais alto  Elly pedia, mexendo o corpo no assento.  Mais alto.
Paris insistiu que ela se segurasse firme, depois mostrou-lhe como esticar as curtas e gordas pernas e traz-las de volta para subir mais alto. Elly ficou encantada com sua nova habilidade e praticou-a mais e mais. Simon satisfez-se em balanar-se indo e vindo calmamente, apenas observando o mundo mudar de posio. De quando em quando ele ria sem motivo especial.
O corao de Paris estava cheio de amor por aqueles dois sobrinhos de Mac, e ela pensava o tempo todo no tio.
Quando Mac voltara  cozinha depois do banho, na vspera  noite, o calor humano que Paris enxergara antes nele no voltara, calor humano por ela ou pelas crianas? Terminado o jantar e depois que Elly e Simon foram postos na cama, Mac desaparecera no prprio quarto onde Paris podia ouvi-lo se movimentando de um lado para o outro, inquieto.
Ficara algum tempo do lado de fora, se perguntando se haveria alguma coisa que pudesse fazer para acalm-lo. Amedrontada com a prpria atitude, finalmente retirara-se para seu quarto. Acalmar o patro no era sua tarefa!
De qualquer forma, calmo ou nervoso, Paris desejava que ele no ocupasse tanto seus pensamentos.
Era quase meio-dia quando Paris conseguiu persuadir as crianas de que estava na hora de sarem do parque, e s os convenceu ao dizer que precisava fazer compras na loja.
Quando chegaram  mercearia de Becky, Paris sentiu alvio ao ver que os dois homens que a importunaram antes no se encontravam na entrada. Naturalmente isso no significava que no estavam no interior. Carregando Simon no colo e dando a mo a Elly, entraram. Suspirou aliviada ao constatar que o local se achava vazio com exceo de Becky que enchia alguns potes com balas coloridas.
Becky sorriu  entrada dos trs.
 Oi! Bem-vindos de volta!  disse, abraando as duas crianas.  O que andaram fazendo?
Ela deu algumas balas a Elly e a Simon e ganhou a amizade dos dois num segundo.
Paris perguntou ento a Becky como fazer para encontrar grupos de crianas aos quais Elly e Simon pudessem se unir. Mas antes que Becky respondesse o sino da porta tocou e uma senhora entrou.
 Al, me  disse Becky. E depois, dirigindo-se a Paris:  Paris, esta  minha me, June. So os filhos de Sheila, me, e esta  Paris Barbour, que trabalha para Mac.
June, uma senhora idosa, aproximou-se e perguntou  filha:
 Posso lev-los l para cima, ao seu apartamento, Becky? Eu gostaria de chamar Irene Devlin a fim de conhec-los. Voc concorda?  June perguntou a Paris.
 Ela era muito amiga da me de Sheila e Mac e acho que gostaria de ver as crianas.
Paris hesitou um pouco, mas logo cedeu. Afinal, Mac era muito amigo de Becky, portanto achou que podia confiar em June. E respondeu:
	Naturalmente que pode lev-los.
	timo  disse June. E olhando para Elly:  Podemos tomar refrigerante.
Elly indo, Simon calmamente foi junto, segurando a mo de June.
Becky observou-os caminhando, e sorriu.
	Meu irmo e famlia moram em San Francisco, por isso minha me no os v muito. E como eu no tenciono ter filhos, ela ter de satisfazer seus prazeres de av conforme puder.
	Voc no deseja ter filhos?  Paris lhe perguntou, admirando-se da prpria franqueza em perguntar.
 Como? E interromper minha brilhante carreira na indstria do varejo? Contudo, pode ser que eu encontre o homem ideal e tenha filhos algum dia. E voc?  Becky perguntou.  O que a fez decidir trabalhar para Mac, se no se importa que eu lhe pergunte? E mesmo que se importe, responda  minha pergunta de qualquer maneira.
Paris fez um rpido resumo de sua vida no ltimo ano, concluindo que desejara um lugar calmo para trabalhar durante algum tempo. Enquanto conversavam, outra senhora entrou na loja. Becky apresentou-a como Irene Devlin. Ela cumprimentou Paris e subiu para ver os filhos de Sheila. Paris se impressionou com o interesse de June e de Irene por eles.
 Outra vov necessitada  comentou Becky, e voltou ao assunto da conversa.  Voc procurou um lugar calmo? Garanto que no conseguiria um lugar mais quieto do que a casa de Mac. Apenas ouviria o eco de uma casa sem mveis. Eu gostaria de estrangular aquela Judith por tirar tudo de l quando abandonou Mac.
Judith? Alerta, Paris sentou-se mais perto de Becky. Paris no gostava de ouvir, tampouco de fazer, fofocas. Afinal, Mac era seu empregador. Porm queria muito saber o que fizera dele um homem to cauteloso, desconfiado, e isso parecia ter algo a ver com Judith.
Becky enxergou perguntas no olhar de Paris.
 Acho que voc no sabe nada sobre ela  disse.
 Mac no lhe contaria. Se eu no o amasse como um irmo, teria lhe dado alguns pontaps por ter se envolvido com aquela idiota. Mas as coisas andaram bem no incio. Um rico engenheiro com conhecimento de informtica contratara Judith para decorar o interior de uma casa que Mac arquitetara. Foi assim que se conheceram. Mac trabalhava muitas horas por dia, sem tempo de conhecer outras mulheres, e preocupando-se com o casamento de Sheila, que por sinal se desmantelava. E Sheila fazendo tudo o que lhe vinha na cabea, qualquer loucura, enfim.
Como por exemplo deixar as crianas com Mac e ir para a frica, Paris pensou.
 Judith parecia ser o sonho de qualquer homem se transformando em realidade. Era linda e sofisticada 	Becky prosseguiu:  Tinha uma calma que Mac devia ter achado refrescante. No sei quanto tempo ele levou para concluir que a tal calma era pura indiferena.  Becky sacudiu a cabea enquanto colocava os potes de balas coloridas nas prateleiras.  Dei-lhe crdito por ele ter finalmente conhecido o verdadeiro carter de Judith, mas foi apenas bem perto do colapso que Mac enfim se livrou dela.
	Perto do colapso?  Paris indagou, alarmada.  Colapso? Mac sofreu um colapso?
	Voc no ouviu falar? No posso acreditar que ningum nesta cidade ainda no encheu seus ouvidos com todos os detalhes.
	Voc  a nica pessoa com quem conversei aqui, at o momento.  Paris no lhe contou que Mac, por algum tempo, a proibira de ir a Cliffside. Mas Paris tinha a impresso de que iria descobrir naquele momento o que havia com Mac.
	Bem, graas ao bom Deus voc est ouvindo isto de mim. Do contrrio, quem pode saber o tipo de mentiras que lhe seriam contadas?  Becky pegou duas garrafas de refrigerante e as duas sentaram-se para beber, num canto da loja onde havia mesas e cadeiras.  Esta  a hora mais sossegada do dia para mim, por isso temos alguns minutos para conversar antes da hora do almoo quando chega a multido. No, Mac no teve um colapso. O edifcio da escola primria de Cliffside ruiu. Ele era o arquiteto e engenheiro responsvel. O prdio estava quase pronto, at com telhado, quando desabou no meio da noite.
	Por qu? Qual a razo disso?
	Trabalho mal-feito.
	De Mac?  Paris perguntou, mas no acreditava naquilo.
	No. Ele subcontratou seu melhor amigo Fred Dexter para o servio de concreto. Fred fez um trabalho pssimo e embolsou um bom dinheiro. Sorte foi o prdio ter cado durante a noite. No houve vtimas.
	No posso acreditar que Mac no tivesse desconfiado de Fred antes.
	No, ele no poderia. Fred sempre fora uma pessoa confivel, mas comeara a jogar e a beber, e, bem, isso o arruinou.
	E Mac sentiu-se responsvel?
	Sim. Era o engenheiro responsvel. Acabou tendo de pagar todas as custas. Vendeu sua empresa, seus carros. Tudo, enfim, exceto a casa.
	A construo no tinha seguro?  Paris perguntou.
	Tinha, mas um seguro inferior ao montante da perda. Mac teve de pagar a diferena de seu prprio bolso. Perdeu tudo, inclusive a noiva. No que Judith fosse uma grande perda. Ela partiu para melhores praias. O pior foi o modo como a cidade toda o tratou desde ento.  Fregueses comearam a chegar e Becky ps-se a falar bem mais baixo:  Todos se esqueceram de que ele havia sido o melhor esportista da universidade e sempre um aluno excelente. Depois que seus pais morreram, ficou responsvel pela irm. Mac comeou seu negcio com apenas vinte e cinco anos de idade e arranjou emprego para muita gente aqui da cidade.
Becky levantou-se a fim de cuidar da freguesia e Paris continuou sentada, refletindo sobre tudo o que lhe fora contado. Enxergava Mac carregando nas costas a responsabilidade da culpa que no fora dele. Alis, ele era uma pessoa fcil de assumir responsabilidades. Ficara com os filhos da irm para que Sheila pudesse ir ao safari.
Paris comparava-o a Keith. Mac perdera seus amigos da cidade. Keith perdera sua fortuna, tendo sido roubado pelos amigos da cidade. Embora fossem duas criaturas bem diferentes, ambos eram iguais no modo como os amigos lhe viraram.as costas.
Desejando fazer mais perguntas a Becky, Paris seguiu-a na loja. Encontrou-a no fim de um corredor e perguntou:
 Mas, Becky, Mac no poderia mesmo ter sabido o que esse Fred iria fazer e...
Ela parou de falar quando viu dois fregueses, os irmos Lyte, virando a cabea ao ouvir-lhe a voz. Quando viram de quem se tratava, Floyd disse:
	Esto falando sobre Mac, no ? E como ele tentou matar todas as crianas desta cidade?
	Oh, Floyd  Becky dirigiu-se a ele, furiosa , no seja mais idiota do que j . Sabe que no  verdade.
	No sei nada disso  Floyd protestou.
	Voc ainda est zangado porque ele o dispensou antes mesmo de o trabalho comear, e porque Fred no empregaria voc. Assim perdeu um bom emprego.
	Isso no  verdade.
Benny, o irmo de Floyd, veio com seus prprios argumentos para defender Fred. Nesse meio tempo, Marva Dexter, a mulher que Paris conhecera antes, apareceu na loja. Ouviu a troca de palavras e entrou na conversa para acusar Mac. Os trs diziam que, no fosse por culpa de Mac, Fred no estaria agora na priso.
Paris mal podia entender o que diziam porque todos falavam ao mesmo tempo. Ela ento ergueu as mos e pediu:
	Um minuto, por favor. Pensem no que esto dizendo. Isso no pode ser verdade. Esto se contradizendo e o que falam no tem senso. O que disse Mac quando vocs o acusaram?
	Nada  Floyd respondeu.  No disse uma palavra.
	E no devia mesmo ter dito  uma voz segura se fez ouvir bem atrs de Paris.
Mac, ainda com sua roupa de trabalho, estava ali parado, as mos na cintura. Mas Paris podia perceber como ele estava tenso, pois fitara-o bem nos olhos.
	Mac...  ela sussurrou, trmula.
	Sra. Barbour, onde esto as crianas?  Mac perguntou.
	Em cima, com June, a me de Becky.
	Sei quem  June  ele disse. Todos do grupo estavam gelados, ficaram sem fala, incluindo Becky.  Por que no vai busc-los?  No era um pedido, mas uma ordem.  Est na hora de irem para casa.
	Tudo... bem.  Paris dirigiu-se a Becky:  Obrigada pela...  Obrigada de qu? Pelas fofocas? Pelos boatos? Pela chance de talvez ser despedida?  Pela soda  ela enfim terminou o que comeara a falar.
Foi na direo de uma escada nos fundos da loja que conduzia ao apartamento de Becky. Viu logo June e Irene com Elly e Simon, descendo.
Paris balbuciou os agradecimentos e pegou na mo das crianas. Viu Mac esperando-a ali perto. Elly foi correndo cumpriment-lo, mas a frieza do tio a afastou.
	Est pronta?  ele perguntou a Paris.
	Sim... Oh, sim...
	Acho que j conseguiu as informaes que desejava, pelas quais veio aqui  ele comentou.
No. No conseguira nada sobre os grupos de crianas que seriam companheiras de Elly e Simon. Mas conseguira informaes bem diferentes.
Dando a mo para Elly e Simon, saiu da loja de cabea erguida, sorrindo para Becky. Depois de ter instalado os dois no carro, seguiu para a casa da colina. O tempo todo estava consciente de Mac que a acompanhava atrs, dirigindo de cara fechada.
Quereria Mac ter certeza de que ela iria diretamente para casa? Que no pararia em lugar nenhum? Que no falaria com ningum? Paris no sabia exatamente por que Mac evitava a ida dela a Cliffside, mas sentia que tinha boas razes. Ela no respeitara essas razes porque estava curiosa sobre ele e sobre sua averso por Cliffside.
Paris chegou em casa humilde e apreensiva. Ajudou Elly e Simon a descerem do carro, ambos inconscientes da tenso existente entre os dois adultos.
Momentos mais tarde, na cozinha, Mac perguntou a Paris:
	Voc no conseguiu atender a meu pedido de ficar longe de Cliffside, no foi?
	Levei os dois  biblioteca conforme concordamos  Paris respondeu.  Ento Elly viu os balanos no parque e quis se balanar. Simon tambm quis tanto e eu no resisti.
	Quer dizer que cedeu aos desejos de dois bebs?
	No vi mal nenhum nisso  ela respondeu erguendo a cabea.
	Claro que no viu.
	A, como havamos combinado, entrei na loja de Becky para lhe perguntar sobre grupos de crianas para Elly e Simon.
	E perguntou bem mais do que isso, tambm. Mal podia esperar descobrir tudo o que pudesse sobre mim.
	Isso no  verdade  Paris protestou, embora soubesse que havia ao menos um gro de verdade no que ele dissera. Ela talvez no tivesse puxado o assunto, mas no sara da loja quando Becky comeara a lhe contar tudo. Mesmo assim, Paris se defendeu:
 Becky me contou o que acontecera, e fiquei contente de ter sabido por ela que  sua amiga. Melhor assim do que os fatos terem chegado a meus ouvidos por intermdio de outras pessoas da cidade.
	Uma vez que isso no  de sua conta, Paris, no faria nenhuma diferena sobre quem lhe contasse.
	Trata-se de algo que poderia afetar as crianas que esto sob meu cuidado. Portanto,  de minha conta, sim. Voc no me contaria por que tinha tanta averso a Cliffside, por isso eu precisava descobrir caso viesse a prejudicar Elly e Simon.
	Agora sabe, no? Sim, pode prejudicar.  Mac encarou-a, como se quisesse falar mais, depois sacudiu a cabea e deu uns passos atrs. Andou um pouco pela cozinha e voltou para perto de Paris.  Elly e Simon ouviram alguma coisa do que os idiotas dos Lyte e a sra. Dexter disseram?
	No  Paris respondeu.  Estiveram com June o tempo todo.
	Graas ao bom Deus por isso  Mac resmungou.
	Mac  Paris segurou-lhe a mo , esses fatos no vo afet-los.
	Como sabe? Como pode saber?  ele indagou.
 No sabe o que  haver por toda parte coisas sussurradas sobre voc.
Oh, sim, ela sabia. Os amigos que queriam o dinheiro de Keith no apreciaram as tentativas que ela fazia para impedir que o marido jogasse fora sua fortuna e, ento, iniciaram uma campanha devastadora contra ela.
Paris no pretendia contar isso a Mac. Ele no se importaria a mnima. Afinal, no passava de uma empregada.
	No importo por mim, mas no quero que esses fatos aborream minha sobrinha e meu sobrinho  comentou Mac.
	Elly tem quatro anos e Simon apenas um ano e seis meses. No saberiam que tipo de gente era aquela.
	E o que significa isso, Paris? Que eles no entenderiam um tom de voz maldoso?
	Bem, eu...
	J no sofreram bastante tendo sido abandonados pela me? Tendo sido deixados aos cuidados de um tio que mal conheciam e que foi bastante tolo em contratar uma bab que no obedece a suas ordens.
	Um minuto.  Paris estava mais furiosa agora do que antes.
 No  Mac disse.  Voc espere um minuto. Errou e o que fez poderia ter magoado os dois tanto quanto a me, por abandon-los. Sou tudo o que sobrou para Elly e Simon. No enxerga isso? Precisam saber que tomarei conta deles sempre, se for preciso.
Chocada, Paris encarou-o. De fato, no considerara os fatos com tanto cuidado como deveria.
	Oh!  ela murmurou.  No pensei...
	No, no pensou.  Mac ergueu a mo no ar para interromp-la.  E  por isso mesmo que est despedida.

CAPTULO VI

Despedida?  Paris fitou-o, os olhos verdes arregalados, atnita.
	Isso mesmo.  Mac no se lembrava de ter ficado assim furioso em anos. Nem quando descobrira que seu incompetente amigo Fred o enganara e arruinara sua empresa, ficara to zangado. E agora, achava que o que Paris fizera era pior do que a tolice e a desonestidade de Fred. Fora uma traio. No iria pensar nas razes que existiam atrs daquilo. Iria mand-la embora. J tivera suficientes traies em sua vida e no deixaria que essa afetasse Elly e Simon.
	Sim, despedida  ele repetiu.  Se no pode fazer aquilo que lhe for pedido, se no pode obedecer ordens, no precisa trabalhar aqui. No  a pessoa certa para o emprego.
Como nunca tivera um emprego antes, nunca fora despedida, Paris no estava gostando daquilo. Devia ter pensado mais antes de expor Elly e Simon ao risco.
	Mas eu tinha duas semanas de treino, e...
	O prazo est cancelado.
	Um minuto, Mac. Errei, confesso, mas no houve consequncias danosas. As crianas no sofreram e, se pode se lembrar, voc mesmo me disse que perguntasse a Becky sobre um grupo para crianas.
	Disse para telefonar, e no para expor Elly e Simon numa situao hostil.
	Hostil?  Paris colocou as mos na cintura e encarou-o.
	No faa essa cara de inocente.
	Voc pode ter tornado a situao hostil, quando entrou l. Becky e June no poderiam ter sido mais amveis com seus sobrinhos. E tenho certeza de que a outra senhora, Irene, tambm.
	Trs pessoas  Mac insistiu.  Trs pessoas numa cidade de mil.
Mac se deu conta de repente de que precisava se controlar, ou as coisas iriam ser piores. Evitou olhar para Paris percorrendo toda a cozinha com a vista.
Apesar de sua fria, notou que nas ltimas semanas o local passara por uma transformao. No parecia mais uma sala de cirurgia. Havia flores em jarros agora, flores de campo que Paris e as crianas apanhavam no jardim e que davam mais calor ao ambiente.
Paris tentara de fato melhorar a cozinha, tornando-a habitvel. Por que fizera ela aquilo? E por que estragara tudo arrastando de volta o passado que Mac tentava esconder?
	No lhe ocorre que voc talvez esteja exagerando?  Paris perguntou.
	No, no estou exagerando, pois voc fez tudo o que lhe pedi que no fizesse. Est despedida.
	Pris est despedida?  A voz de Elly soou da porta da cozinha e Mac a viu l, com um livro na mo. O livro caiu no cho e o lbio da menina comeou a tremer. Os enormes olhos se arregalaram, devido ao alarme.
Mac comeou a se acalmar.
Elly  disse, segurando-lhe a mo.  Oua-me.
	A sra. Stone tambm foi despedida um dia, eu me lembro. Teve de vender todos os mveis de seu apartamento  Elly comentou.
	No, no, querida, isso no vai acontecer comigo  Paris consolou-a, tendo ido logo ao encontro da menina.
 O gatinho da sra. Stone ficou sozinho enquanto ela foi procurar outro emprego... e ele fugiu. A sra. Stone nunca mais o encontrou.
Simon estava apavorado. Comeou a chorar.
Estarrecido, Mac olhava para a sobrinha. Paris segurava-a no colo, beijava-lhe o rosto e enxugava-lhe as lgrimas com um guardanapo que encontrou sobre a mesa.
 Quem era a sra. Stone, Elly? Uma vizinha sua?  Paris perguntou.
 Sim. O apartamento da sra. Stone ficava pegado ao nosso. Ela chorava tanto por causa de no ter trabalho...
Observando o carinho com que Paris tratava a crise de Elly, alguma coisa doeu dentro de Mac. Paris gostava tanto das crianas! Ainda estava zangado com ela, mas impressionado com o afeto que dedicava a Elly.
Reconheceu que no podia fazer uma criana sofrer por lhe ser tirada a pessoa mais estvel em sua vida. Aproximou-se de Elly. A menina agarrou-se ao pescoo do tio quando ele se abaixou. Mas no abandonou Paris, de forma alguma. Por isso os dois adultos quase encostaram os narizes quando Elly os uniu com um inesperado e forte abrao.
 No quero que Paris v embora  Elly disse, encostando sua testa na do tio.
Mac viu ento os olhos de Paris bem de perto. Nunca havia notado antes que tinham reflexos dourados, e que os clios eram to longos. A pele macia parecia porcelana da mais preciosa qualidade.
Ele no queria ver tudo aquilo unido ao amor que tinha por Elly e Simon, e  pena que sentia dos dois por estarem sem a me.
	Pris no vai embora, vai, tio Mac?  Elly sussurrou-lhe ao ouvido.
	Como?  Aps segundos, Mac respondeu:  No, ela no vai embora.
	Bom. Vou dizer a Simon que ficou apavorado quando lhe contei.  Elly pulou do colo de Paris. Mas antes de sair disse ao tio, sacudindo o dedo na frente dele:  Tio Mac, voc gritou com Pris. Abrace Pris e pea desculpas a ela.  Dando meia-volta, a menina foi  procura de Simon.
	Elly me mandou abraar voc e pedir desculpas  disse Mac, vendo emoo estampada no rosto de Paris.
	No, no ser necessrio.
	Porm ela quer que eu faa isso.  O desejo de ter seus braos em volta de Paris crescia mais e mais, aguardando pelo momento.
	Voc  aquele que disse que eu no devia fazer o que Simon desejava, e agora pretende satisfazer o desejo de Elly?
	Quem sabe eu esteja ao menos tentando entender como as crianas foraram voc a ficar mais tempo na cidade, indo  casa de Becky, quando eu disse que os levasse  biblioteca e apenas telefonasse para Becky.
	Isso de abraar e pedir desculpas no faz sentido.
 Vamos ver.  Mac ps os braos em volta da cintura de Paris e puxou-a para mais perto de si. Fitou-a firmemente, depois desceu o olhar at os lbios semi-abertos de Paris, que tremiam.
A presso dos suaves seios contra seu corpo o fez esquecer-se do motivo pelo qual discutiam quando Elly entrara. No podia se lembrar por que estava to furioso com Paris. Na verdade, no podia se lembrar de nada, nem mesmo do prprio nome. A nica coisa de que se lembrava era de como tinha prazer em segur-la junto a si. Havia muito, muito tempo que no segurava uma mulher daquele jeito.
Paris parecia um pouco alarmada. Mac lhe perguntou:
 O que h com voc, Paris? Tem medo?
Ela ficou mais furiosa ainda com o desafio.
Os lbios dela estavam midos, tentadores. Mac achou que perdera a razo e viu-se prestes a ter um comportamento inconveniente. Quis evitar. Porm o desejo que sufocara por tanto tempo venceu. E beijou-a com fome, querendo sentir aqueles lbios contra os seus, ouvir-lhe os gemidos de desejo. Ele queria...
 No!  Paris disse, afastando-se.
Os dois se fitaram e Mac enxergou pnico em Paris, um pnico do qual ele compartilhava. Um abrao, Elly dissera, e um pedido de desculpas.
Paris sentiu as pernas pesadas, e achou que precisava dizer alguma coisa. Mas seu poder de fala secara e sumira juntamente com seu bom senso.
Mac umedeceu os lbios.
 Paris, eu... Voc no est despedida.  A voz dele falhou e tentou de novo:  Podemos conversar sobre o assunto... e...
Os olhos de Paris expressavam qualquer coisa que Mac no podia ler: medo? ultraje? Achou que tinha falado algo errado.
 Preciso pr as crianas na cama para o descanso da tarde  ela disse e saiu da sala.
Sozinho, Mac comeou a andar e colidiu com o balco. O que fizera? O que conseguira fazer? Mudara tudo, estragara tudo. Agora Paris no era mais nada. No era a bab, no era a governanta, no era a ajudante que contratara. Paris era uma mulher e ele estava bem consciente disso.
O que fizera Mac?, Paris se perguntava enquanto andava pela casa, dando a mo a Elly e arrastando Simon aos trancos quando passou por ele. O menino gritou em protesto e segurou os livros. Paris consolou-o e foi com os dois para o prprio quarto.
Mac estragara tudo, pensava, desolada. Uma coisa era v-lo como empregador, at como um homem necessitado de carinho, de conforto, mas beij-lo? Sim, porque ela o beijara, correspondera ao beijo, e isso era algo bem diferente, algo maior e mais esmagador do que queria admitir.
Percebera a necessidade de Mac, atravs de sua relutncia de no querer ficar muito preso aos filhos da irm, mas agora vira isso claramente, no momento desesperador do beijo.
Ela sempre lutara para estreitar o relacionamento entre tio e sobrinhos, porm jamais imaginara fazer parte da vida de Mac. No queria sentir por ele mais do que carinho e pena. Mas no havia nada de carinho ou pena naquele beijo que ela retribura, havendo da parte de Mac apenas pura necessidade, talvez paixo. No amor.
Podemos conversar sobre o assunto. O que quisera ele dizer com aquelas palavras? Sua ambiciosa imaginao logo se enchera de imagens sensuais dos dois, porm Mac provavelmente no quisera dizer aquilo. Sem dvida ela imaginava coisas sem razo.
Distrada, incapaz de se concentrar, Paris deitou-se na cama agarrada a uma criana de cada lado. Pegou um livro e comeou a ler a histria de um macaco que fazia coisas incrveis. Mas sua mente no estava no macaco, e sim em Mac.
Ele ficara furioso, ameaara despedi-la, mas Elly o impedira. Paris olhou para a cabea loura da menina, que pousava em seu ombro. Elly no tinha idia de como mudara as coisas, por sua insistncia num abrao de reconciliao. Para tornar as coisas piores, Mac transformara o que deveria ser um simples pedido de desculpas numa fogueira que queimara a ambos, e, pior, uma fogueira da qual ela desejara fazer parte.
Precisavam falar sobre aquilo, Paris decidiu. No aconteceria de novo, ela insistiria. Decidido o assunto, com o peito ainda arfante, Paris terminou de ler a histria e percebeu que as crianas haviam adormecido. Ela calou os dois com travesseiros e foi  procura de Mac. Mas encontrou a casa vazia. Mac sara de carro enquanto ela estava com as crianas no quarto.
Bom, Paris pensou. Ela precisava descansar a fim de refletir melhor sobre o que pretendia dizer. Ficou muito tempo na porta dos fundos da casa, olhando a distncia, na direo que ele sempre tomava.
Poderia muito bem ter evitado o trabalho de preparar um pequeno discurso. Mac no voltou para casa a tempo de ouvi-lo. Ela preparou o jantar, alimentou e banhou Elly e Simon, brincou com os dois, leu ainda mais alguns livros, e Mac no tinha chegado. Depois providenciou um lanche para Mac e at escreveu o nome dele no papel em que o embrulhara para que no se esquecesse de lev-lo. Mesmo depois disso, Mac no chegara.
Irritada, foi para a cama mas no conseguiu dormir at escutar o barulho do carro e depois os suaves sons dos movimentos dele pela casa. Pensou em se levantar e ir conversar, mas hesitou porque, sem a presena das crianas, Paris no sabia o que poderia acontecer.
"Tudo bem", ela sussurrou consigo mesma. Depois enterrou o rosto no travesseiro.
Paris ouviu Mac entrar no prprio quarto e sentou-se na cama. Precisava encarar os fatos, decidiu, pois cabia a ela estabelecer as fronteiras no relacionamento entre empregador e empregada, para que no houvesse mais situaes desagradveis como a de horas atrs.
Mac teve razo de ficar furioso. Ela devia ter sabido o que uma visita curta a Cliffside significava. Em seu ponto de vista tudo parecera perfeitamente normal, porm as objees apresentadas por Mac, que chegara a ponto de despedi-la, provaram que possua um ponto de vista diferente. Ela teria de tomar mais cuidado dali por diante.
Era isso, Paris concluiu aliviada. Apenas precisava ter certeza de que se comunicavam bem em tudo o que se referisse s crianas. E, mais importante ainda, teria de conservar seus lbios para si mesma.
Paris dormiu mal  noite e levantou-se cedo para que pudesse falar com Mac antes que sasse para trabalhar. Mas ele ganhou, pois seu carro desaparecia na estrada quando ela chegou  porta.
 Para um homem to grande, at que pde se movimentar bem depressa  Paris sussurrou.  Ou ele teve de chegar mais cedo ao trabalho, ou no quer me ver.
Foi preparar o caf da manh. Quando o telefone tocou, olhou para o aparelho com surpresa. O telefone raramente tocava naquela casa.
	Al,  da residncia do sr. Weston. Paris Barbour falando.
	Paris o qu?  uma voz hesitante perguntou.  Aqui  Sheila White. Mac est?
Paris retesou o corpo. Sheila!
	No, ele no est, sra. White. Acabou de sair para o trabalho.
	Oh, pensei que pudesse alcan-lo antes de sair.  Sheila parecia desapontada.  Quem  voc? Est tomando conta de Elly e Simon?
 Sim. Sou governanta da casa e bab das crianas.
Paris olhou para trs a fim de ver se as crianas haviam levantado. No sabia bem como manobrar a situao. Talvez fosse melhor que Elly e Simon no ouvissem a conversa.
	Os dois esto bem?
	Ambos esto muito bem, sra. White.
	Deixe-me falar com Elly.
Paris lembrou-se logo de como Elly chorara, achando falta da me. Estava agora comeando a se acostumar. Paris desejou que Mac estivesse em casa para lhe dizer como agir. Depois resolveu fazer valer sua opinio. E respondeu, bem pausadamente:
	Sinto muito, mas ambos esto dormindo. Porm garanto-lhe que esto muito bem.
	Oh, entendo. Eu preciso falar com Mac sobre um assunto...
	Quer que ele lhe telefone?
 No. Estivemos por algum tempo aqui em Nairobi mas vamos partir. Telefonarei outra vez quando puder, mas no ser logo, s daqui a alguns dias.
Houve uma longa pausa. Paris no podia entender por que Sheila no voltava logo para casa a fim de cuidar de seus filhos, se estava to preocupada com eles. Depois se deu conta de que ainda no queria que Sheila voltasse porque amava Elly e Simon e queria ficar com eles algum tempo mais.
Tambm queria continuar na casa de Mac. Com Mac.
	Eles... eles perguntam sobre mim?  Sheila quis saber.
	Sim, perguntam. Sentem muita saudade.
	Oh! Voc tem experincia com crianas?
Paris teve vontade de rir, mas foi varrida por uma onda de compaixo. Estaria ela achando que errara em deixar os filhos? Ou talvez que seus filhos haviam sido entregues a mos incompetentes? Sheila devia ter pensado no caso semanas atrs, antes de viajar, mas Paris no era to cruel para censur-la.
	No se preocupe  ela disse em vez, tentando consolar Sheila.  J cuidei de crianas antes e seu irmo foi muito cuidadoso ao verificar meu currculo e minhas referncias. Elly e Simon esto muito contentes comigo.  E Paris relatou brevemente o que as crianas estiveram fazendo, e disse que se sentiam bem felizes com Mac.
	timo, sra. Barbour. Fico feliz em saber que esto bem... e alegres. E que no esto chorando. Detesto quando choram.
	Crianas choram, s vezes, sra. White. Mas essa fase passa com o tempo.
	Sim, eu sei. Mas eu precisava de um descanso disso, entende?
 No, acho que no entendo.  Paris estava furiosa, e respondeu friamente.
Mesmo a lguas de distncia Sheila devia ter entendido o que o tom de voz de Paris significava. E terminou a conversa:
 Diga a Mac que telefonei e que telefonarei de novo em breve.  Ela desligou antes que Paris pudesse responder.
Paris ficou refletindo sobre o que Sheila pensava naquele momento. Lamentava sua viagem? Sentia saudade dos filhos? Teria seu afastamento a levado mais longe do que planejara? No, no havia muita preocupao na voz dela.
Deprimida e triste por causa de Elly e Simon, Paris abriu a geladeira a fim de comear a preparar o jantar. E viu ainda l o almoo que fizera para Mac. Olhou melhor e notou que algum bebera parte do leite da garrafa. S poderia ter sido Mac. Portanto, ele no quisera mesmo comer o que ela preparara achando que constituiria num tipo de compromisso. Num relacionamento a longo prazo.
Por Deus, afinal ela era uma governanta. Fazia parte de sua tarefa fazer o almoo, ele quisesse concordar com isso ou no. Paris sentou-se  mesa apoiando o queixo com a mo.
O que havia com aquela famlia, afinal? Sheila viajara e deixara os filhos, pior, no parecia arrependida. Sim, ela precisava de um descanso do choro das crianas. Pensaria ela que a misso da me limitava-se apenas a ouvir o choro dos filhos? No saberia ela que a misso da me era muito mais vasta?
Paris sentia-se perdida, em especial porque Elly e Simon no choravam muito, como a maioria das crianas.
E havia Mac. Dava aos sobrinhos todo o carinho de que necessitavam, mas levara um tempo para ligar-se a eles.
Contratara uma governanta, beijara-a at perder o flego, mas no queria que ela fizesse nada para ele, nada do que ela fora contratada para fazer...
 Bom dia, Pris  uma voz sonolenta interrompeu seus devaneios.
Paris virou-se depressa e viu Elly na cozinha. Abriu os braos e a menina correu para ela, feliz por sentar-se no colo de Paris durante alguns minutos at acordar por completo. Bocejando, perguntou:
	O que vamos fazer hoje? Podemos voltar ao parque?
	Bem, provavelmente no ao parque, mas...  Paris fez uma pausa pensando no almoo de Mac que fora deixado para trs.  Que tal irmos ver tio Mac na hora do almoo? Podemos fazer um piquenique.

CAPTULO VII

Mac equilibrava-se sobre o beiral de uma viga do telhado e inclinava o corpo para a frente a fim de pregar um compensado que instalava no telhado. Em alguns dias terminariam o servio, ele pensou com satisfao enquanto se balanava calmamente. Colocou o martelo na ala do cinto de ferramentas, depois caminhou pela viga at a escada que usara para subir. Antes de descer, parou a fim de admirar a vista do oceano.
Aquele era o lugar perfeito para uma casa, um dos locais pouco habitados ao longo da costa. O proprietrio, um artista de Los Angeles, comprara lotes de ambos os lados da casa para garantir sua privacidade, e pagara caro por eles. A casa fora construda com proteo contra terremotos e o melhor material existente, embora Mac no concordasse com o projeto. Tivesse sido ele o arquiteto, tentaria convencer o proprietrio a fazer um mirante com vista para o mar, no lugar onde estavam as janelas. Contudo, Mac ouvira falar, e achou um tanto irnico, que o ator, famoso por suas acrobacias, tinha pavor de altura. Sem dvida sentia-se mais seguro com uma srie de janelas entre si e a beirada do rochedo.
Mas ele no era o arquiteto, lembrou-se, continuando a descer a escada. No passava de um carpinteiro executando seu servio, graas ao velho amigo Jeff Glio, o construtor, que o pusera a cargo do trabalho dando-lhe assim oportunidade de refazer sua reputao. Fora uma estranha virada da sorte porque, um dia, haviam sido iguais. E seriam iguais de novo. Enquanto isso no acontecia, Mac estava grato pela chance, e pela f que Jeff depositara nele. A construo ia muito bem, e os homens trabalhavam rapidamente com a liderana de Mac e na esperana do bnus que o proprietrio lhes prometera se a obra terminasse na data combinada.
Mac sorria. Era o dinheiro que falava. Isso ele sabia melhor do que qualquer um. Dessa vez, seria em seu benefcio.
Ele sentia o cansao prazeroso que o trabalho da manh lhe trouxera. Sentia pena da pessoa que trabalhava entre quatro paredes num dia como aquele. Na verdade, sentia pena de qualquer indivduo que no era seu prprio patro. Incluindo-se, claro. Porm essa situao mudaria logo e ele enviaria servio para Jeff em vez de ser contratado por seu velho amigo. Pagaria suas dvidas e compraria alguns mveis para a casa. Paris ficaria contente.
Surpreso, parou de sonhar. Quando foi que comeara a pensar em termos de agradar Paris? Franziu a testa. Oh, sim, lembrava-se. Comeara a desejar agrad-la logo depois de ter se comportado como um idiota. No fora o beijo, no. Fora um erro de julgamento. Comportara-se como um tonto quando correra e se escondera dela. Incrvel. Nunca fugira de um desafio em sua vida, mas aquela mulher de boca tentadora e pedindo com o olhar que lhe tocasse os cabelos, o assustara, fazendo-o fugir da prpria casa num esforo para evit-la.
Quem imaginaria que o brilhante filho do sr. e da sra. Weston pudesse se transformar num covarde?
Desgostoso consigo mesmo, Mac afastou esses pensamentos e concentrou-se num problema mais imediato. Fome. Tinha de ir a Alban comprar alguma coisa para comer, e estaria faminto antes de chegar l.
"Teimoso", murmurou para si mesmo ao encostar os ps no solo. "Idiota e teimoso". Devia ter pegado o almoo que Paris preparara para ele com todo o cuidado, caracterstico de tudo o que ela fazia. E sentiu-se como um tolo por ter querido despedi-la.
Sentiu-se ainda mais tolo por a ter beijado. Por qualquer razo que no conseguiria explicar, achou que, pegar o almoo que Paris lhe fizera, pareceria estar tirando vantagem dela, numa espcie de negcio: beije-me hoje, faa meu almoo amanh.
O que, naturalmente, no tinha sentido. Com um gesto de impacincia Mac tirou o cinto de ferramentas da cintura e colocou-o sobre o cavalete de serraria coberto de tbuas, que os homens usavam como mesa de trabalho.
Ao lado dele, Grey Taggart punha l o prprio cinto dando um longo assobio.
 Por Deus, o que voc acha que  aquilo? E o que faz ela ali? Procura algum endereo, talvez.
Mac ergueu a cabea esperando ver uma garota de biquini atravessando o local da construo para chegar ao caminho pblico que descia pelo rochedo at a praia.
Em vez disso, enxergou Paris em p ao lado do carro dela, protegendo a vista do sol enquanto olhava para cima. O vento brincava com seus cabelos louro-avermelhados, obrigando-a a afast-los do rosto com ambas as mos. Usava uma blusa abbora e uma de suas saias longas estampada com folhas de outono. A brisa colava suas roupas ao corpo delineando-lhe os seios e as longas e geis pernas. Grey fitou-o e disse:
 Linda, no? A paisagem melhorou muito por aqui.
Mac, os olhos fixos em Paris, teve dificuldade em falar, mas enfim balbuciou, num tom de ameaa:
 Grey!
	Esquea, amigo. Eu a vi antes. E acho que ela gostou do que viu. Acenou para mim.  Depressa, ele tirou o bon de beisebol da cabea, arrumou os cabelos, e recolocou o bon. Enrolou as mangas da camisa para exibir os msculos.  Acha que hoje  meu dia de sorte?
	S se ela for cega  Mac resmungou.  Ou ficou louca.
O que estaria Paris fazendo l?, Mac se perguntou. Algo errado em casa? Onde esto as crianas?
No precisou se perguntar uma segunda vez, porque Paris abria a porta do carro e comeava a desafivelar cintos de segurana. Elly correu para o tio o mais depressa que pde, com suas perninhas gordas e curtas, os braos estendidos, gritando de alegria o tempo todo.
	Mac?  Grey perguntou, fitando o amigo com ar desconfiado.  Voc andou fazendo alguma coisa que ns no sabemos?
	Provavelmente  Mac respondeu, depois gemeu quando Elly foi de encontro a seus joelhos. Pegou-a no colo, ela logo enlaou-lhe o pescoo e apertou-o.
	Vamos fazer um piquenique!  Elly gritou nos ouvidos dele, quase deixando-o surdo.  Trouxemos sanduches, suco, e Pris fez biscoitos. Tm um cheiro delicioso.
Simon se aproximou e segurou nos braos do tio para ser carregado tambm. Mac viu Paris tirar do carro um cobertor e um grande saco de papel. Depois de trancar as portas e guardar as chaves no bolso foi ao encontro de Mac. Continuava segurando os cabelos para poder enxergar por onde caminhava.
O vento ergueu-lhe a saia expondo-lhe as pernas bem acima dos joelhos.
 Dai-me foras, meu Deus  Grey sussurrou.  Eu gostaria de saber que homem deixaria escapar uma mulher dessas. Olhe s que pernas!
Mas no ouse, Mac pensou, e logo surpreendeu-se com sua atitude possessiva. A, em vez de seguir seu instinto e agredir Grey, franziu a testa.
	Por que no trouxe um casaco?  ele perguntou assim que Paris chegou mais perto. Um longo casaco at os ps e fechado at o pescoo, no estilo militar.
	Um casaco? No faz menos que vinte graus aqui, Mac. Por que um casaco?
Ele no poderia responder sem parecer um idiota. Ficou de boca fechada.
 Oh, quer dizer que se conhecem, hein?  Grey perguntou, aproximando-se com um sorriso nos lbios.  Achei que havia sido a personalidade de Mac que atrara as crianas.
Sentindo-se forado a uma apresentao, Mac disse:
 So minha sobrinha e meu sobrinho, Elly e Simon White, e a bab deles, Paris Barbour.
Paris sorriu e Grey tomou-lhe a mo e beijou-a. Mac considerou aquela atitude um tanto grotesca em um homem com a aparncia dele, e em roupa de trabalho. Paris corou at a raiz dos cabelos.
 Uma bab, hein?  Grey perguntou.  Parece-me um emprego fascinante. Ser que esse senhor de escravos dar uma noite livre para voc me contar como  sua vida? Acredite-me, trabalho com ele por muito tempo e sei como ele pode ser duro. Que tal sexta  noite?
 Ela precisa trabalhar  Mac resmungou, colocando as crianas no cho para poder puxar a mo de Paris que Grey mantinha cativa.  Voc tinha cola de carpinteiro nos dedos?
Paris fitou-o espantada, duvidando da sanidade mental de Mac por ter sido to grosseiro com o amigo. Porm Grey deu uma gargalhada.
	D algumas horas de divertimento para a moa  Grey insistia.  Garanto que ela no teve nem um minuto de folga depois que comeou a trabalhar para voc.
	Por que no almoa e vai terminar com a moldura das janelas da ala sul?
	Certo, chefe  Grey disse, sorriu para as crianas e acrescentou:  Quer dizer que esses so os filhos de Sheila, no?
	Sim.  Mac lembrou-se de que Grey a conhecera na escola.
 D lembranas minhas a ela quando a vir.  Com um sorriso para Paris, acrescentou:  No se esquea de meu convite, srta. Barbour. Telefonarei e marcarei a data.
Nem por sombra, Mac pensou ferozmente. O corado quase sumira do rosto de Paris mas o flerte de Grey deixara nos olhos dela um brilho que Mac nunca tinha visto antes, nem mesmo quando a beijara.
Talvez devesse beij-la de novo, Mac admitiu. S queria ver se conseguia fazer aqueles olhos brilharem assim para ele.
E quantas vezes um homem poderia agir com tanta idiotice no espao de cinco minutos?, Mac se questionou.
Ele acomodou melhor as crianas nos braos e disse a Paris:
 O que faz voc aqui? Aconteceu alguma coisa?
Paris levantou a cabea e explicou:
 Voc esqueceu o almoo na geladeira, por isso ns o trouxemos. Trouxe alguma coisa para ns tambm, e vamos fazer um piquenique na praia. As crianas gostariam de comer com voc.
Em outras palavras, ela no se importava se ele queria ou no. E Mac decidiu que era exatamente o que desejava fazer. Qual era a vantagem de ter uma famlia, mesmo uma famlia temporria, se no podia matar uma hora de trabalho para usufruir algum tempo com ela?
	Nada me faria mais feliz  ele disse, divertindo-se com a expresso de surpresa de Paris.
	Tudo bem ento  declarou ela, recuperando-se logo da surpresa. Seus olhos brilhavam de prazer.  Vamos descer at a praia. Trouxe um cobertor e seu almoo.
	Obrigado. Esqueci mesmo  ele mentiu.
	H por l um lugar sombrio onde podemos estender o cobertor?  Paris indagou.
	Penso que h um bem abaixo do rochedo, fora dos raios diretos do sol.  Pegou Simon no colo e segurando Elly pela mo, ele tomou um caminho tortuoso que ia at a praia.  Vamos  ordenou.
Paris ficou um pouco atrs apreciando-o carregar Simon e guiar os passos inseguros de Elly. O momentneo nervosismo que sentira sobre aparecer de surpresa no local de trabalho de Mac, sumira, ficando apenas o incmodo quanto ao modo como ele interrompera o insignificante flerte de seu amigo.
Paris sabia que no tinha nada a ver com sentido de propriedade, mesmo se considerando o beijo que compartilharam. Teria Mac medo de que, caso se interessasse por um homem, ela passaria muito tempo com esse homem em vez de trabalhar?
E lembrar-se de que ele pensara em despedi-la na vspera!
Paris sacudiu os ombros e apressou-se em juntar-se ao grupo. Desistira de tentar de adivinhar o pensamento de Mac.
No fim da estreita via, Mac virou  direita e entrou na praia rochosa, inclinando a cabea para ouvir o que Elly falava. A indiferena que no incio demonstrara pelos sobrinhos sumira. Era tocante ver com que cuidado os acompanhava.
Estaria Mac percebendo como mudara?, Paris se perguntava. Quanto as crianas haviam mudado? Como se sentiam seguras com ele? Esperava que sim. Elly e Simon mereciam se sentir seguros. Ao pensar nessa segurana lembrou-se de Sheila.
To logo Mac encontrou o lugar que procurava, ps Simon no cho e os quatro comearam a andar pela praia. Paris viu uma pequena extenso de areia fofa e estendeu o cobertor. Tirou as sandlias e ajoelhou-se para arrumar o almoo. Enquanto se ocupava, contou a Mac sobre o telefonema de Sheila.
	O que voc acha que isso significa?  ela perguntou.
	No sei  Mac respondeu, enquanto observava as crianas indo at a beira da gua.  Acho que provavelmente ela telefonou para saber dos filhos, para fingir interesse, e no por verdadeira preocupao.
	Foi a impresso que tive  Paris comentou.  Como se telefonar para saber dos filhos fosse algo que ela ouvira dizer que era uma obrigao de me.
	Sim, provavelmente tudo isso estava atrs desse telefonema, mas...
	Mas o qu?  Paris interrompeu-o.
	O que me incomoda  que no me lembro de a ter visto preocupada com eles  disse Mac. Com cuidado, ele observava Elly e Simon chegando perto das ondas. Rindo, Elly pulou para trs, puxando o irmozinho consigo.
Paris sentia-se feliz pelo fato de Mac ter se aberto com ela em relao a Sheila como me, mas infeliz ao mesmo tempo pelo desaponto dele em relao  irm. Paris riu ao ver Mac ir para perto das crianas, pronto a agarr-las caso ficassem muito perto das ondas. Talvez Sheila nunca desenvolvera esse tipo de entendimento de que necessitava para ser me, mas com um pouco de esforo e prtica esse entendimento crescera em Mac.
	Porm devo confessar que no estive muito perto de Sheila o tempo todo  Mac continuou com o assunto.  Achei que Sheila no gostaria que o irmo mais velho interferisse em sua vida.  Ele riu, mas um riso sem alegria.  Acho que ela teve bastante dessa interferncia quando menina.
	Quantos anos voc  mais velho que ela?  Paris perguntou.
	Dez anos. Nossos pais j entravam na meia-idade quando Sheila nasceu, e no tiveram com ela a mesma energia que tiveram comigo. Sei que nossos pais a amavam, mas Sheila era peso demais para pessoas j um tanto idosas, e ela no teve muito bom exemplo de como pais deveriam agir. Talvez por isso seja assim.
Ou quem sabe Sheila seja egosta e no possa encontrar tempo para os filhos em sua vida.
Paris ficou com lgrimas nos olhos. Ps a mo na testa de Mac e disse:
 Voc est dando parte de seu tempo para eles, Mac. E isso  o que importa agora.
Mac olhou para a mo de Paris e os olhos de ambos se encontraram.
	Ser? s vezes me pergunto se estou agindo certo com eles. Afinal, eu fui o nico modelo de adulto jovem que Sheila teve em sua vida, e veja no que deu.
	Minha me tinha mais de quarenta anos e meu pai cinquenta e um quando eu nasci.
	Voc deu enorme trabalho a eles?
	No, sempre fui uma menina quieta, dcil. Mac arregalou os olhos de tanto espanto.
	E quando mudou?
Paris engoliu a tentao de lhe dizer que fora no dia em que se conheceram.
	Voc quer dizer, quando fiquei mandona e metida?
	Isso.  Ele sorriu.
 Recentemente.  Paris no quis entrar em detalhes sobre seu casamento, e Mac percebeu a hesitao. Foi para perto de Elly e Simon, na gua.
Ajudou-os a tirar os sapatos para que pudessem entrar livremente no mar e logo tambm fez o mesmo. Enrolou a cala at os joelhos e pulou as ondas com os dois, erguendo-os quando as ondas eram fortes demais.
Encantada, Paris observava os trs, consciente da sensao de paz que se instalara dentro dela. Mac, sabendo ou no, havia mudado. Mesmo que cuidar de Elly e Simon fosse uma tarefa temporria, sua vida havia sido permanentemente alterada pelas crianas.
Ela tambm mudara, Paris deu-se conta com certa surpresa. Na realidade, sentia-se feliz pela primeira vez em mais de um ano e essa felicidade tinha um sabor todo especial.
Vendo que Mac, Elly e Simon observavam alguma coisa na beirada da gua, foi ao encontro deles.
	O que acharam?  perguntou.
	Um caranguejo  Elly respondeu, os olhos brilhando, enquanto o pequeno crustceo fugia pela areia.
 Mas ele no se parece com tio Mac.
Paris sorriu e Mac fitou-a, intrigado.
 Voc achou que ele devia se parecer com tio Mac?  Paris perguntou, lanando um olhar de esguelha a Mac.
	Bem, minha mame disse que s vezes tio Mac parecia um caranguejo.
	Tenho certeza de que sua mame estava brincando, Elly.
	Oh, no, no mesmo!  insistia Elly, sacudindo a cabea vigorosamente.  Ela disse que tio Mac era mando como um caranguejo. Ela disse, no foi, Simon?  Elly pediu o testemunho do irmo que estava ocupado acompanhando o caranguejo.
	Tenho certeza de que sua mame sabia o que falava, Elly. Afinal, ela conhecia seu tio Mac havia muito mais tempo do que qualquer um de ns  Paris comentou.
	Voc no pode nadar to bem como um caranguejo, tio Mac?  Elly lhe perguntou.
	Ora, posso nadar muito melhor  Mac respondeu, mas com os olhos perigosamente fixos em Paris.  Eu gostaria mesmo  de saber se Paris nada bem. Que tal descobrirmos agora?
	Como?
	Sei que voc foi criada num quase deserto, mas acredito que havia piscinas l. Garanto que sabe nadar.
	Oh, no  ela respondeu mas olhando ao redor para ver se havia possibilidade de escapar.  No nado. No havia piscinas em Hadley, apenas canais de irrigao. E  difcil nadar num canal de irrigao.
	Que acha se ns a jogarmos no Oceano Pacfico?
	No! Exatamente o que eu disse foi que no sabia nadar.
	No acredito. Quero testar agora.
Paris ps-se a correr. Sentiu que lhe seguravam a saia e teve certeza de que era Mac. Ela correu mais depressa, mas como no queria deixar as crianas sozinhas na beirada da gua parou abruptamente e tomou a direo oposta. Mac passou por ela e parou com um resmungo quando viu que Paris o tapeara. Rindo, Paris correu mais depressa ainda.
Ao olhar para a frente, viu que no precisava se preocupar com as crianas. Elly pulava as ondas enquanto os dois adultos corriam na praia. Simon tentava imitar a irm e gargalhava.
Mais uma vez Paris sentiu qualquer coisa nas costas. Mac segurava-a pelo ombro fazendo-a parar. Depois girou-a para que o fitasse.
 Um caranguejo... hein?  ele perguntou, ofegante.  Paris, voc precisa aprender que no  boa idia insultar seu empregador.
	Eu sei. Ele pode tentar me demitir  Paris caoou.
	E de repente  capaz que tenha sucesso.
	No! Ele sempre ouve a voz da razo depois de algum tempo. Alm disso, eu tenho uma vantagem.
Mac pegou uma mecha de cabelos dela e usou-a para segur-la a fim de a forar a fit-lo. Baixou a vista para os lbios de Paris e voltou para os olhos.
 E qual  essa vantagem?  ele perguntou.
Paris gostava daquele aspecto romntico de Mac.
Adorava o modo como ele devia ter sido antes de as circunstncias mudarem sua vida, tornando-o duro.
	Eles  Paris disse, apontando para Elly e Simon no momento em que os dois agarravam as pernas do tio, fazendo-o perder o equilbrio. Para se conservar de p, Mac segurou-se em Paris que passou o brao pela cintura dele.
	Acho que voc tem mesmo essa vantagem.  Mac roou os lbios nos dela.
	Tio Mac, por que voc corria atrs de Pris?  Elly quis saber.
	Porque ela estava tentando fugir.
	Ns no queremos que ela v embora.
 No, ns no queremos  ele concordou.
Uma onda de calor varreu o corpo de Paris, trazendo incrvel alegria por estar l com aquelas crianas e com aquele homem. Era o que sempre desejara, o que esperara ter com Keith mas que nunca obtivera.
	Agora, d um beijo em mim e em Simon, Pris  Elly pediu.
	Pois no, madame!  Paris beijou os dois e Mac imitou-a.
Depois, ele olhou para a sobrinha e perguntou:
 Acha que eu devo beijar Paris tambm?
Paris ficou estarrecida, lembrando-se do beijo da cozinha. Mac no ousaria repetir a mesma coisa na frente das crianas, ousaria?
 No!  Elly disse.
	No?!  Simon repetiu, embora Paris duvidasse que ele houvesse entendido o que estava acontecendo.
	Tem certeza de que no devo beijar Paris?  Mac perguntou a Elly, mas sem tirar os olhos de Paris.
	Tenho  Elly insistiu.
	Por que no devo beij-la?  Mac parecia estar questionando Paris. Quer me beijar?, ele parecia dizer.
Paris quis falar sim, mas sua garganta fechou-se.
 Porque leva muito tempo  Elly explicou, num tom de voz de sofrimento.  Vi na tev. Pessoas grandes beijam, beijam e beijam, enquanto eu e Simon temos de esperar esperar, e esperar.
Os dois adultos caram na gargalhada, quebrando assim a tenso existente entre eles.
	Pensei que voc estivesse fiscalizando os programas de tev que eles assistem  comentou Mac.
	Alto l!  Paris ergueu a mo.   claro que fiscalizo. Ela provavelmente viu uma propaganda de pasta de dente.
	Boa desculpa  Mac resmungou, mas Paris enxergou sorriso nos olhos dele.
Paris tirou Simon dos braos de Mac e os quatro voltaram para o lugar do piquenique.
	Estou gostando muito deste passeio  Elly declarou.
	Sim,  muito bom  Mac concordou.
	Precisamos fazer mais piqueniques  disse Elly, lanando depois um olhar de esguelha para o tio.  Seria bom um piquenique no parque.
Mac olhou da menina para Paris, que sacudiu os ombros, inocentemente.
 Talvez faam isso  ele cedeu.  Mas s se eu for com vocs.
  o que sempre quisemos, tio Mac  comentou Elly, dando um suspiro.  Que voc fosse conosco.
Eu tambm, Paris pensou, enquanto caminhavam pela praia pedregosa. Apesar do sol quente, ela tremeu  veracidade da afirmao de Elly. Paris queria Mac com ela, queria que Mac fosse dela.

CAPTULO VIII

Para surpresa de Paris, Grey Taggart lhe telefonou naquela mesma noite e convidou-a a sair.
 H um bom clube aqui na cidade de Alban  ele disse.   chamado The Lucky Spur. Voc sabe danar quadrilha?
Paris procurou por Mac com o olhar. Ele estava na cozinha acompanhando um desenho de Elly e lhe dizendo que ela prometia muito como arquiteta. Depois teve de lhe explicar o que era ser uma boa arquiteta na linguagem que uma menina de quatro anos pudesse entender. E ele ainda explicava isso enquanto Paris falava no telefone.
	Bem, Grey...  muita amabilidade sua me convidar para o The Lucky Spur...  Paris gaguejou.  Mas confesso que no sei danar quadrilha.
	Ora, tudo bem. Pode aprender.
Olhando para trs ela viu a cabea de Mac e repetiu sua ridcula experincia dos ltimos tempos, de ficar vermelha. Enrolava o fio do telefone nos dedos mesmo enquanto se perguntava por que estaria to tensa.
	E que acha de sexta-feira  noite?  ele perguntou.
	Esta sexta-feira?
	Sim. No tem outros planos, tem?
	Bem, no, mas preciso trabalhar, tenho certeza, e...
	No, no precisa  Mac interrompeu-a. Tirou o fone da mo dela.  Grey?  Ele falou no telefone sem tirar os olhos de Paris.  Paris vai ficar muito contente de ir.  sua noite de folga.
Paris quis tirar o fone da mo de Mac, mas no conseguiu. Ps as mos na cintura e ficou olhando para ele. Sua surpresa e embarao sumiram do rosto dando lugar ao aborrecimento.
 Certo, amigo  Mac respondeu.  Direi a ela. At amanh, ento.  Ele colocou o fone no gancho e comunicou:  Grey apanhar voc s sete. Use sandlias boas para danar.
Paris teve vontade de agredi-lo, de quebrar-lhe a cabea com o pau de macarro.
 Sr. Weston?  ela chamou-o com a voz mais doce do mundo.
Ele virou-se, preocupado. Nunca ouvira aquele tom de voz vindo de Paris e esperava que algo desabasse em sua cabea.
	Sim?
	Desde quando sexta-feira  noite ficou sendo meu dia de folga?
	De repente me dei conta de que nunca falamos sobre suas folgas. Voc no  uma prisioneira aqui. Apenas uma empregada.
Sem dvida, essa explicao machucou-a. Depois da alegria que tivera naquele dia, da experincia de estarem juntos, acreditara haver mais entre eles do que apenas um relacionamento entre patro e empregada.
Claro, estivera errada o tempo todo.
Tinha mais a dizer a Mac, porm devido  presena de Elly, com os grandes olhos fixos neles, e lembrando-se de como a menina reagira na ltima vez em que discutiram, Paris sorriu friamente e foi preparar o jantar. Logo que as crianas fossem para a cama iria ter uma conversa com Mac.
Naquela noite Elly e Simon demoraram mais do que o habitual para dormir. Estavam excitados por causa do piquenique e da presena do tio, que resolvera ler as histrias para eles antes que adormecessem.
Quando leu a stima histria, Mac fechou o livro beijou os dois rapidamente e correu para o prprio quarto.
Paris cobriu Elly, jogou um cobertor sobre Simon e foi atrs de Mac.
Abriu a porta do quarto dele e entrou.
	Eu gostaria de falar com voc, Mac.
	Sim?  Ele lhe lanou um olhar inocente.  Sobre o qu?
	Sobre voc ter marcado um encontro com Grey Taggart para mim.
	No gosta de Grey?  Ele fingiu mostrar-se surpreso.
	No conheo Grey.
	Bem, mas para isso existem os encontros, concorda? Vir a conhec-lo. Mas, se precisar de uma recomendao, eu o conheci durante toda a vida dele e posso lhe garantir que  um bom rapaz, para quem gosta do tipo.
Cruzando os braos no peito, ela perguntou:
	Que tipo  esse?
	Acomodado. No quer saber de compromissos. Grey gosta de mulheres, mas sua ltima namorada, Mnica Barris, abandonou-o no ms passado porque ele no estava interessado em casamento.
Bem, e no ser essa uma coincidncia? Somos ento. Para sua informao, contudo, no marco encontros com homens que acabei de conhecer.  Com que tipo de homens voc marca encontros? Mac perguntou, parecendo muito curioso. Nenhum tipo. Ela nunca sara com nenhum homem exceto Keith, e no tivera interesse por homem algum desde a morte dele. At conhecer Mac. Vendo que ela no respondia, Mac continuou:
Saia com Grey, vai se divertir. Ele  muito bom para fazer a pessoa rir.
Diferente de algumas pessoas que conheo  ela sussurrou.
	Como?
	Nada. Vamos voltar ao assunto de nossa conversa.
	E qual era?
	No preciso de voc para marcar os encontros por mim. Posso fazer isso sozinha.
	Com quem? Com Floyd ou Benny Lyte? So os nicos outros homens que voc conheceu desde que chegou a Cliffside.
	Bem, nesse caso no desejo me encontrar com ningum.
	E como vai encontrar outro marido se no se encontra com homens?  Mac perguntou.
	No estou interessada em casamento.  Talvez no fosse estritamente verdade, mas Paris irritava-se com ele.  Quando lhe dei a impresso de que estava interessada em outro marido?
	Precisa de um  Mac insistia.   boa para crianas, daria uma tima me.
Atnita, Paris no sabia o que dizer. Abriu a boca e fehou-a em seguida. Mac a enxergava apenas como uma governanta de crianas. Mas talvez estivesse enganada. Estaria mesmo?
	D uma chance a Grey  Mac prosseguiu, ignorando a fria de Paris.  Vai gostar dele.  um rapaz atltico, joga no time de futebol local. Voc pode ir ao clube alguma noite para v-lo exercitar os msculos.
	No me importo se ele  um membro das olimpadas, no quero...  De repente ocorreu-lhe uma idia. Mac nunca dava ponto sem n, portanto devia haver uma boa razo para tanta insistncia. Quereria que ela se ausentasse um pouco da casa para ficar sozinho com as crianas? No, ele estava cada vez mais apegado aos sobrinhos mas no desejava fazer todo o trabalho necessrio no trato com crianas. Talvez quisesse evit-la um pouco, arrependido das horas que passaram juntos na praia no a vendo como uma empregada. Talvez sim. Talvez no.
	No se esquea  ele disse.  Sete horas, na sexta-feira  noite. Grey  muito pontual.  Conduzindo-a ao corredor, ele fechou a porta de seu quarto.
Paris levou alguns segundos para conseguir raciocinar. Entrou no prprio quarto. No adiantava, no convenceria Mac. O homem simplesmente tentava empurr-la para o amigo. Bom. Sairia com Grey e se divertiria a valer.
O que Paris estaria pensando?, Mac se perguntou enquanto observava as luzes do carro de Grey desaparecerem na rua. No fundo, no queria que Paris sasse com ele. Grey era um bom rapaz, todos gostavam dele e tudo o que dissera a Paris era verdade, ele era divertido, atltico. E disponvel.
Disponvel demais, Mac pensava enquanto se dirigia  prxima janela para ver os ltimos reflexos das luzes dos faris.
Grey dirigia o carro de luxo que raramente tirava da garagem, engraxara as botas, escovara os cabelos usando tanta colnia que daria a Paris um ataque de alergia, se ela sofresse de alergia. E se no sofresse, estaria tonta antes do fim da noite.
A noite? Seria muito bom que Paris voltasse antes que a noite se adiantasse muito. s dez horas o mais tardar ou iria procur-la. Uma mulher responsvel por duas crianas no deveria ficar fora at muito tarde. Precisava descansar para o trabalho do dia seguinte.
 Oh, diabos!  Mac exclamou em voz alta, depois olhou ao redor para ver se Simon o ouvira. Nos ltimos dois dias o menino comeara a repetir tudo que ele dizia, o que fazia Paris repreend-lo constantemente. Aliviado, constatou que os dois se divertiam com os livros e brinquedos espalhados pelo cho da sala, e no ouviram sua blasfmia.
Mac s podia culpar a si mesmo pelo fato de Paris ter sado. No instante em que a escutara no telefone com Grey uma onda de cime se apoderara dele. Paradoxalmente, reagira da maneira oposta. Propusera-se a arranjar-lhe um encontro com Grey. No se podia conden-la por ter ficado furiosa e mal falara com Mac desde aquele dia, excetuando-se pedir-lhe que passasse o sal no jantar ou que limpasse a boca de Simon antes de o menino se levantar da mesa.
Ento  noite, quando Paris sara do quarto para o encontro, ele surpreendeu-se emudecido ao v-la descer a escada.
Paris no usava o costumeiro jeans ou saias folgadas. Oh, no! Em homenagem  ocasio pusera um vestido preto de saia bem curta e um cinto prateado que marcava a cintura, bem mais fina do que ele suspeitara. Atravessara o corredor com sapatos de salto bem alto, os cabelos cados nos ombros, e se apresentara a Elly para que a inspecionasse. Sua sobrinha traioeira dissera que ela era a bab mais linda do mundo. De fato, Mac concordou que Paris era qualquer coisa mais linda do mundo.
Infelizmente, no podia deixar de concordar com a sobrinha, e os olhos de Grey quase saltaram das rbitas quando Paris lhe abriu a porta.
Resmungando, Mac espiou em todas as janelas da sala na esperana de ainda ver os dois. Depois parou a fim de ler alguns livros para Elly e Simon antes de eles se deitarem. Quando dormiram voltou a espiar na direo da estrada, pela janela da cozinha, da sala, e de volta pela da cozinha, na esperana de que j estivessem voltando.
Mac passara a maior parte do tempo pensando em Paris, depois do passeio da praia. Concluiu quo importante Paris se tornara em sua vida.
Precisava manter distncia, pensou, lanando um olhar amuado para a estrada. Sem dvida as crianas a adoravam, sua casa nunca tivera mais calor, nunca fora to convidativa e confortvel como desde o dia em que ela chegara. Tampouco ele comera to bem.
Mas ainda precisava ficar bem claro que ela era uma empregada, de que tinha uma vida privada toda sua, que a informao que lhe dera sobre Grey significava simplesmente que se preocupava com uma empregada.
Decidido isso, olhou o relgio e esqueceu-se de todo o sermo que mentalmente pregara a si mesmo.
Oito horas. O que estariam fazendo Paris e Grey? E que tipo de lugar era o The Lucky Spur, afinal? Ele nunca estivera l. Sua noiva, Judith, jamais iria a um lugar daqueles, a um bar de cowboys, como diria ela.
As luzes seriam suaves demais? As bebidas fortes demais? Grey carinhoso demais para uma solitria viva? Mac se torturava com as imagens que se reproduziam em sua imaginao.
Voltou  janela da sala e l ficou com as mos nos bolsos, notando, no pela primeira vez nos ltimos tempos, que sua cala no mais escorregava da cintura.
Engordara quase cinco quilos desde que Paris comeara a trabalhar para ele. Verdade, tivera dvidas no incio, mas Paris trabalhara exatamente conforme prometera. Era tima cozinheira e uma bab conscienciosa.
E ele, estava sendo um patro consciencioso? Mac endireitou o corpo e ficou olhando para a escurido. Que tipo de homem, que tipo de empregador era? Sabia que Grey era um bom rapaz apesar de sua atitude irresponsvel em relao  vida a dois. Mas, o que dizer acerca dos outros homens do The Lucky Spur? Quando vissem Paris com aquele vestido preto, bem curto, reagiriam como se tivessem ganho na loteria?
Mac sentia-se constrangido ao pensar na pouco confortvel situao em que colocara Paris. Devia ser chicoteado por isso.
Tampouco uma rpida deciso e agarrou o telefone. Discou um nmero e falou:
 Becky, preciso de um favor seu.
A banda do local tocava alto demais. Paris tinha a impresso de que tocava dentro de sua cabea.
 Formidvel, no?  Grey lhe perguntou, encostando-se nela para lhe mostrar o prximo passo da dana que procurava lhe ensinar.
Para a frente, para o lado, para trs. No, aquilo no podia estar certo, Paris pensou, confusa, ao colidir com a montanha de um homem que danava atrs dela. Gaguejando uma desculpa, seguiu para a frente e pisou no p de uma senhora. Tudo seria mais fcil se o lugar no estivesse to cheio, e se ela pudesse respirar. Mas, entre o acmulo das pessoas no salo e a nuvem de colnia proveniente de Grey, no havia muito oxignio no ar.
	Paris? E formidvel, no ?  ele repetiu.
	, sim  ela confirmou, esboando um sorriso um pouco menos vacilante que seus ps naqueles malditos saltos altos.
Grey segurou-a pela cintura e a fez dar o prximo passo. Paris achava que sua cabea ia se desligar do corpo para depois voltar ao lugar. O que fizera, afinal? Usava um vestido que guardara para arrancar das rbitas os olhos de um homem, mas eram os olhos de Mac, naturalmente, que ela queria ver rolando no cho, no os de Grey. Mac era a pessoa que desejava impressionar com suas pernas expostas naquele vestido curto, no Grey.
Para Grey devia ter usado botas e jeans, como a maioria das mulheres do lugar. Crescera numa cidade cheia de bares de cowboys. No havia outro tipo de gente em Hadley. Portanto, sabia o que deveria usar, mas o aborrecimento e a vaidade venceram, e desejou punir Mac por haver marcado aquele encontro no desejado. E pensar que Mac pouco se importava... A indiferena no olhar dele quando a viu emergir do quarto confirmou isso.
E o que ganhara com sua vaidade? Tornozelos inseguros e ps doloridos, precisando de alvio.
Grey sorriu para ela e Paris retribuiu-lhe o sorriso. Na verdade, Grey era um bom rapaz e muito divertido. No era culpa de Grey ela ter sido to idiota na escolha do sapato.
 Voc vai indo muito bem  ele elogiou-a, embora Paris tivesse pisado nos ps dele seis vezes em poucos minutos.  Na prxima vez em que sairmos juntos, voc saber o que fazer.
Sim, ela pensou, que  bem melhor ficar em casa e ler um bom livro. Mas no queria ofend-lo e, quando a msica parou de tocar, disse:
	Com certeza, Grey. Obrigada por toda sua pacincia comigo.
	Ora, apenas tentei proporcionar a uma lady algumas horas de prazer.
Ele fez esforo para no mancar quando voltou  mesa. Ao se sentarem, viu que sua cerveja estava quente e o refrigerante de Paris era s gua, pois o gelo derretera. Foi at o bar encomendar bebidas.
Aproveitando a oportunidade da ausncia dele, Paris esfregou a testa e se perguntou por que no levara alguns comprimidos de aspirina.
	Divertindo-se ainda?  Ouviu uma voz atrs de si. Virou a cabea e deparou com seu patro.
	Mac? O que faz aqui? Onde esto Elly e Simon?
 Calma  ele disse, sentando-se ao lado de Paris.  No os deixei sozinhos. Becky est cuidando deles. Quis ver se tudo ia bem com voc, pois, afinal de contas, sou responsvel por esse encontro. Como vai indo?
	Est me fiscalizando? Exatamente o que pensa que vou fazer? Tem receio de que o embarace de alguma maneira?
	No, claro que no. S quis ter certeza de que Grey a est tratando bem. E tambm saber se est gostando de danar quadrilha.
	Veio ver se estou gostando de danar quadrilha?
	Bem, sabe como me sinto responsvel  ele repetiu.  E...  Olhou para a pista de dana como se nunca tivesse visto coisa to fascinante.
Paris encarou-o. Ele chamara Becky para cuidar das crianas, se banhara, escovara os cabelos, barbeara-se, espalhara loo pelo corpo, vestira cala limpa e a camisa que ela passara na vspera, e engraxara os sapatos, s para ver se ela gostava de danar quadrilha?
No. De forma alguma, no.
Pela primeira vez desde que Grey telefonara e Mac insistira no encontro, Paris teve vontade de gargalhar. E riu muito.
	Essa  a desculpa mais esfarrapada que ouvi em minha vida, Mac Weston. Por que, realmente, est aqui?  Paris achava que sabia, mas queria ouvi-lo dizer.
	J lhe disse, desejava ver se...
	Conte-me por que est aqui. Sem mentir.
Ele olhou para Paris, desviou o olhar, fitou-a de novo. Levantou-se e a fez se levantar.
 Vamos danar  pediu.
Paris levantou-se mas no saiu de perto da mesa. Ps uma das mos no quadril e ergueu o queixo, em atitude de desafio.
	No, no vou  ela respondeu.  No at voc me contar por que motivo est aqui.  Paris estava adorando aquilo.
	Fiquei com cimes  ele murmurou, num tom de voz furioso. No queria que voc danasse com ningum mais, alm de mim. No com essas suas pernas.
	So as nicas pernas que tenho.
	E especialmente no com este vestido.
	Acho que eu poderia danar sem vestido, isso eu poderia  disse ela com olhar malicioso e deixando que Mac a levasse para a pista de dana. A orquestra comeava a executar uma msica lenta.
	Nem mesmo em seus sonhos mais loucos, menina, danar sem vestido  ele sussurrou-lhe ao ouvido, trazendo-a mais para perto de si.
A felicidade tomou conta de Paris e lgrimas brotaram em seus olhos. Ele estava com cime. Paris no podia acreditar. O homem que no a queria por perto, que no a achava competente para cuidar dos sobrinhos, tinha cime por ela estar com outro homem. Paris nunca considerara o cime uma qualidade atraente em homens, mas num homem como Mac, que no se abria facilmente, era lisonjeiro. Mais do que lisonjeiro. Danando com o rosto encostado no peito dele, pde enfim reconhecer algo que crescia nela por dias j. Amava Mac.
Amava Mac Weston mesmo quando desejou espanc-lo por sua teimosia. Mesmo quando no podia entend-lo e entender as razes que o faziam agir como agia, amava-o.
Desde o dia em que fora quela casa, admirara a integridade moral dele em receber as duas crianas, em trabalhar duro para salvar sua reputao, para comear sua vida de novo. Essa admirao crescera e se transformara num amor que enchia sua vida de delcias, de alegria, de medo. Amara apenas um homem em sua vida, que preferira se lamentar em vez de lutar para fazer de si um sucesso, como Mac fizera.
Mesmo feliz, Paris sentia um pouco de tristeza. Perdera Keith, e no queria perder Mac. Achava que Mac no gostaria que ela declarasse seu amor. Para ele, seria outra responsabilidade a carregar nas costas, talvez at um peso.
Suspirando fundo, se prometeu guardar segredo de seu amor pelo menos no momento.
	Algo errado?  Mac lhe perguntou, afastando-a um pouco para v-la melhor.
	No. Tudo vai bem. Agora, tenho uma pergunta a lhe fazer.
	Que pergunta?
	Est vendo aquele homem com uma camisa verde de cowboy?
 Aquele que est usando uma quantidade de colnia cujo perfume chega at aqui? O que h com ele?
	Ele pensa que  meu flerte desta noite.
	No brinque! Vou me entender com ele.
Mac, no sou o tipo de mulher que sai com um homem e volta para casa com outro  ela disse seriamente.
	Mesmo que o outro homem more na mesma casa com voc?
	Mesmo.
	Como sabe que no  esse tipo de mulher? Nunca teve problema idntico antes.
	Apenas sei. Sinto isso.  Paris olhou para Grey que finalmente voltava do bar onde fora buscar os drinques e abria caminho no meio da multido.
	Est bem. Grey leva voc para casa mas eu ficarei esperando na porta.  Com essas palavras Mac sumiu entre os pares que danavam.
Paris voltou para a mesa.
	Oh, apareceu enfim  disse Grey, colocando as bebidas na mesa e puxando a cadeira para ela.  Beba e vamos danar um pouco mais. Voc est aprendendo depressa  ele falou com entusiasmo. Paris sorriu. Ela no queria danar mais, queria voltar para casa, para Mac.
	Foi Mac que eu vi h um minuto atrs?  Grey lhe perguntou.
	Foi.
	Veio para vigi-la?
	Sim.  O que poderia ela dizer?
	Acho que Mac est demonstrando um pouco mais de interesse do que normalmente demonstra por uma funcionria.  Grey sacudiu os ombros.  Afinal, trabalhei com ele durante anos e nunca me pareceu interessado sobre o lugar onde eu ia danar nas sextas-feiras  noite. Falo srio. Mac  um bom rapaz porm severo demais consigo mesmo, desejoso demais em assumir responsabilidades que no so dele, como no caso dos filhos de Sheila. E... bem, em outros casos.  Acomodando-se melhor na cadeira, Grey tomou um gole de cerveja.
	Que outros casos, Grey? Voc se refere ao edifcio da escola que ruiu?
	Sim, e a tudo que se seguiu. H mais, porm ele mesmo lhe contar. Vamos danar. Estou com a impresso de que esta  a nica vez que sairei com voc, por isso quero aproveitar bem. Se Mac veio fiscaliz-la, imagino que no a deixar ficar longe de seus olhos outra vez.
Paris riu, esperando que fosse verdade, enquanto voltava  pista de dana.
Depois de mais ou menos meia hora, voltaram para a casa de Mac. Paris mal podia conter sua excitao, pois sabia que Mac a aguardava. Grey acompanhou-a  porta, desejou-lhe boa-noite e disse que desejava poder danar com ela mais uma vez. Porm que esperava que Mac no jogasse na cabea dele uma viga do telhado.
 Eu detestaria que isso acontecesse  sussurrou Paris, ficando na ponta dos ps para beij-lo no rosto.
Grey se foi, assobiando at o porto, e Paris ps a mo no trinco da porta.
Antes mesmo de gir-lo, a porta se abriu e um brao agarrou-a pela cintura. O brao de Mac. Ele beijou-a.
	Pensei que ele nunca fosse embora  murmurou.
	Grey ficou aqui apenas dez segundos  Paris protestou.
	Nove segundos a mais. Tempo longo demais para voc beij-lo.
	Foi um beijo de agradecimento pela linda noite que me proporcionou.
	Bem, est em casa agora  ele resmungou.  E a melhor parte da noite nos espera.
Mac beijou-a como se fosse um homem faminto, e Paris correspondeu ao beijo com a mesma paixo. Ele a fez ficar na ponta dos ps para que pudesse alcan-la com mais facilidade. Devorou-lhe os lbios e depois as faces, as plpebras.
	Achei que eu ia ficar louco esta noite quando voc saiu com Grey  Mac confessou, entre beijos.
	Eu no queria ir com Grey, queria ir com voc.
 Impossvel, no sei danar quadrilha.
Sorrindo, Paris segurou-lhe a face entre as mos, agradecendo ao bom Deus por ele ter se barbeado com cuidado. Mac enchia a solido que a torturara havia muito, desde bem antes da morte de Keith. Ela teve vontade de confessar-lhe que o amava, mas no conseguiu. Seus lbios tremiam.
	Que tal nos beijarmos sentados?  Mac sugeriu.
	No h um sof aqui.
	No, mas tenho uma cama.
Paris ficou gelada. Amava-o muito, um amor que parecia gotejar pelos poros. Mas no podia fazer o que Mac sugeria a menos que ele a amasse tambm.
 No posso, Mac  respondeu, afastando-o.
Ele segurou-a pela cintura e disse:
	Voc no pode me dizer que no me deseja tanto quanto a desejo. Eu no acreditaria.
	Desejar e possuir uma mulher so duas coisas diferentes, Mac.
	E no posso possu-la? Por qu?
	A coisa funciona dos dois lados. Eu tambm no posso possu-lo. No  o momento certo.
	Que momento pode ser mais certo do que este?
	Mac, por favor  Paris suplicou.  Isso complicaria as coisas por demais. No pode ver?
Ela rezou para que Mac compreendesse, porque no poderia explicar com mais clareza. Se fizesse amor com ele, no havendo verdadeiro amor entre os dois, mas apenas paixo, ela ficaria desesperada quando Mac a abandonasse, o que aconteceria com certeza, e sua solido seria ainda pior.
	Isto  um verdadeiro martrio, Paris  Mac queixou-se, segurando-lhe as mos.  Sei que voc no  uma pessoa que se diverte em provocar. E honesta, tenho certeza. Chego portanto  concluso de que deve haver algo mais em sua vida, que desconheo. Ainda ama seu marido?
	Sempre o amarei  ela respondeu com franqueza.  Keith foi importante para mim e de muitas maneiras ajudou-me a ser o que sou agora, mas no morri com ele. Custou-me muito voltar  vida mas, repito, no morri com ele.
Paris quis dizer que comeara a voltar  vida no dia em que Mac a contratara, mas as palavras morreram em sua garganta. Admitir isso o animaria a beij-la mais e com mais paixo. E Paris no tinha certeza se podia continuar aceitando aqueles beijos.
Mac ficou silencioso durante muito tempo, seus olhos fixos nela como se quisesse memorizar-lhe os traos.
 Pois bem, no vou for-la a nada, mas sabe onde me encontrar se me quiser  declarou.
Oh, ela o queria muito, sobre isso no havia a menor dvida, mas respondeu:
 Sim, Mac, eu sei.
Com um ltimo beijo, ele saiu da sala. Observando-o, Paris sentiu uma onda de antecipao misturada a tristeza, uma emoo que no conseguia definir.
Sua nova vida comeara no instante em que Mac lhe abrira a porta da casa. Cuidar de Elly e de Simon, aprender a am-los, e com o tempo, amar o tio deles, completaram sua transformao e, para melhor ou pior, sua vida fora alterada definitivamente.
Estava pronta para relegar ao passado o amargor que havia sido seu companheiro constante por tanto tempo. E devia grande fatia dessa mudana a Mac.
Uma parte de seu corao estaria sempre com ele. A pergunta, contudo, seria, se ele a queria, ou no.
Ou melhor, se a amava.

CAPTULO IX

No sei se foi uma boa idia termos vindo aqui  disse Mac, parando o carro no pequeno estacionamento e olhando para os balanos e aparelhos de ginstica.
 Por que no?  Paris lhe perguntou.
Mac olhou para fora e passou o polegar ao longo do queixo.
	Alguma coisa pode acontecer.
	O que poderia acontecer?  Paris observou o calmo parque vendo mais pessoas do que quando ela, Elly e Simon, estiveram l antes. Mas ainda no muita gente.
Havia algumas famlias com crianas pequenas e um senhor idoso sentado em um banco. Seu chapu cobria os olhos e as mos moviam-se lentamente dentro e fora de um saco de papel enquanto ele atirava pedacinhos de po e nozes aos esquilos. Um enorme co negro deitava-se a seus ps, os olhos fixos nos pequenos esquilos beneficiados pela generosidade de seu dono. Gania cada vez que um dos animaizinhos passava por perto dele, mas no o perseguia.
Vrias crianas mais velhas brincavam nos aparelhos de ginstica. Duas jovens mes conversavam alegremente, sempre de olho nos filhos.
 No gosto de surpresas  comentou Mac.
Paris, por outro lado, no se importava com surpresas. Pensara haver tenso entre eles depois dos ardentes beijos da vspera e do modo como se afastara de Mac. Para seu alvio, no entanto, Mac a tratava com calor e ternura, o que lhe dava prazer embora a intrigasse. Excetuando-se os poucos dias em que ele brincara com Elly e Simon, Paris no conhecia esse lado de Mac. E amava-o ainda mais por isso.
	Bem, voc no precisa olhar com essa cara, como se temesse haver aqui dinossauros devoradores de crianas prontos a devorar Elly e Simon. Alm disso, como Elly repetiu uma dzia de vezes esta manh, voc prometeu traz-los ao parque.
	No precisa me contar  Mac resmungou.  Meus ouvidos esto ainda tinindo com esses lembretes.
E por causa dos lembretes eles estavam l, dois adultos, sentados no assento dianteiro, "exatamente como papai e mame", na linguagem de Elly, e com duas crianas atrs.
Elly e Simon quiseram descer do carro.
Aps alguns segundos de hesitao, e outra olhadela pelo parque, Mac apeou e fez o que as crianas pediam. Fora do carro, Elly saiu correndo para os balanos enquanto Simon seguia atrs, caindo uma vez na fofa areia mas levantando-se logo em seguida e continuando, a ateno fixa na meta.
Paris notou que o velho senhor parara de alimentar os esquilos e concentrara o olhar nas crianas. Franziu a testa para Paris como se desaprovasse o fato de ela haver levado crianas ao parque.
Paris se perguntou por que o velho senhor estaria naquele lugar, se no gostava de crianas. Correu atrs de Simon que parara de sbito quando o cachorro negro levantou a cabea. Simon foi ao encontro de Paris que o levou at um balano com cordas de segurana.
Ao passar por perto de Elly, a menina insistiu que no precisava de ajuda.
Achando que Elly talvez aceitasse ajuda de seu adorado tio, Paris olhou para Mac e notou que ele tinha uma feio estranha. O velho senhor fitava-o com olhar maldoso. A Paris ficou desconfiada. Nunca ouvira falar que homens excntricos frequentassem parques infantis.
Talvez o homem no tivesse nada de excntrico. Talvez fosse um dos inimigos de Mac.
O velho senhor levantou-se do banco, pronunciou algumas palavras ininteligveis, e foi embora puxando o cachorro.
Mac foi ento para perto de Elly e empurrou-a com tanta fora que ela deu gritos de alegria por ter subido to alto. Paris morria de vontade de perguntar quem era o tal homem, mas a expresso do rosto de Mac no era muito convidativa. Resolveu ento cuidar das crianas. Estava um pouco preocupada com Elly, mas acalmou-se quando viu que o tio a observava com cuidado.
Mac virou-se para Paris e sorriu, pois percebeu que ela ficara apreensiva por causa do estranho visitante do parque. Paris devolveu-lhe o sorriso.
Ela vira Mac sorrir mais nos ltimos dois dias do que em todos os outros dias desde que chegara naquela casa. E teve certeza de que isso se devia  presena dos sobrinhos.
Eles passaram uma hora no parque seguindo Elly e Simon dos balanos aos escorregadores, e aos aparelhos de ginstica. Quando Elly e Simon foram finalmente  caixa de areia, Paris e Mac sentaram-se num banco de uma mesa de piquenique. Mac esticou as pernas numa pose relaxada que Paris nunca o vira assumir antes.
De fato, apesar da discusso que tiveram sobre a prometida visita ao parque, e da momentnea tenso  vista do homem idoso, Mac foi se acalmando aos poucos. Paris esperava que pudessem fazer coisas desse tipo mais vezes. Ela achava que era uma prova do amor que nutria por Mac pensar tanto na vida dele, no temperamento, no que o fazia feliz, no que o fazia triste. Sentia-se perdidamente apaixonada.
Sorrindo, disse a Mac:
	Viu? No foi to mau assim, certo? Voc est vivendo um dia relaxado, seus sobrinhos esto felizes...
	Voc conseguiu me trazer aqui, portanto pare de me amolar agora  ele interrompeu-a com voz seca.  Agora sei com quem Elly aprendeu a agir assim.
	No estava amolando voc, mas apenas dando-lhe sugestes.
	De novo, de novo, de novo.  
	Tive receio de que no me tivesse ouvido.
	Ouvi-a uma centena de vezes.
	De qualquer maneira, no acho que isso seja amolar.
	O que  ento?
  dar mais fora a uma idia... a uma opo.
Mac deu uma gargalhada e foi cuidar das crianas.
Um sorriso suavizava seus lbios em geral tensos. Paris esperava que ele sentisse que Elly e Simon haviam enchido um vazio em sua vida como encheram um vazio na dela. Mac tambm enchera um enorme vazio em sua vida, mas isso por enquanto era segredo.
A aceitao das crianas  nova vida foi uma lio para Paris. Pois, embora sabendo que Elly tinha saudade da me, considerava-a uma menina feliz.
Paris observava Elly fazendo um castelo de areia, concentrando-se em sua obra artstica.
	Tio Mac,  assim que um arquiteto faz um castelo?
	 assim mesmo, Elly  Mac respondeu. Paris surpreendia-se como uma menina de quatro anos podia ter expresso to tranquila em face das mudanas que sofrera na vida, tendo sido praticamente abandonada pela me que correra atrs de uma aventura amorosa quando a maior aventura da vida dela poderia ter sido encontrada cuidando de duas crianas maravilhosas.
Paris reconhecia, contudo, que no podia ser juiz de Sheila. Ela mesma se enfurecera por causa das mudanas e circunstncias de sua prpria vida.
E o que dizer de Mac?, ela se questionou. Como agira ele ante a queda em espiral de sua vida? Estaria ele pronto, tal qual ela, a deixar o passado para trs e a construir um futuro? Gostaria de ter coragem de lhe fazer essa pergunta.
 Algo errado?  Mac lhe perguntou, fitando-a intrigado.
Rubra de vergonha ao se dar conta de que ficara olhando para ele durante muito tempo, Paris respondeu:
 No... no. Acho que vou ver se Simon precisa trocar de fralda.
Mac sorriu a essa desculpa. Afinal, que beb poderia ser to ansioso em trocar de fralda? Paris foi ao encontro de Simon que escapou dos braos dela quando agarrado. Ele no gostou de ser interrompido em seu brinquedo, e Paris decidiu que a fralda poderia esperar mais um pouco.
Voltando ao banco, Paris viu que Mac estava de p falando com o velho senhor que haviam visto antes. No parecia ser uma conversa amistosa.
Lembrando-se de que era apenas uma bab e no um juiz, hesitou em aproximar-se dos dois homens. No entanto, quando Mac ergueu o dedo apontando na direo do nariz do senhor idoso, ela deu uns passos  frente. No tinha ainda idia do que iria fazer.
 Sr. Weston, as crianas esto cansadas  ela disse apenas, tentando parecer o mais domstica possvel.  Se o senhor estiver pronto, penso que  melhor irmos para casa.
Os dois homens olharam para ela como se perguntassem quem era aquela mulher e o que fazia l. Mac levou alguns segundos para reconhec-la, e depois parte de sua fria sumiu. Mas a serenidade que ele experimentara momentos antes, desaparecera por completo.
O velho senhor respirava ofegante, o que fez Paris compar-lo a uma mquina prestes a explodir. E ele perguntou a Mac:
	Escondendo-se atrs das saias de uma mulher agora, Weston?
	Burt, pare com isso. No funciona  Mac respondeu.
Embora no sabendo qual era o problema, Paris teve pena de ambos. O mais velho estava furioso e aborrecido, enquanto Mac parecia irritado.
Examinando cuidadosamente os dois, Paris se perguntou por que interferira, mas resolveu ir adiante:
	Est na hora do almoo. As crianas esto com fome e uma hora de sono lhes far bem.
	 verdade  Mac concordou enfim.  Vamos.  Ele comeou a andar mas o velho senhor segurou-o pelo brao.
	No acabei ainda, Weston  disse.
	Sim, Burt, voc acabou. Teve um enfarte h dois anos e no pode se aborrecer desse jeito.
	Ento  melhor eu no o ver aqui nunca mais 	Burt respondeu.  V-lo solto enquanto meu filho est...
 Enquanto seu filho est pagando pelo que fez  Mac terminou por ele, com voz muito calma.  Est na hora de voc aceitar isso, Burt, e parar de se queixar.
Os olhos de Burt encheram-se de lgrimas.
 Saia daqui  ele ordenou com voz embargada.
 Saia!
	Burt, este parque no  seu, tampouco esta cidade. Tremendo, Burt virou-se e insistiu:
	No se esquea do que lhe falei.
	O que o homem falou a voc?  Paris perguntou, assim que se afastaram.
	Basicamente, que esta cidade no  suficientemente grande para abrigar ns dois  Mac resmungou.  E no preciso que voc interfira num argumento como este.
	Oh, sim  Paris retrucou com ironia , seria melhor que Elly e Simon apreciassem vocs dois brigando fisicamente.
	No haveria uma briga. Trata-se de um senhor, pai de um de meus melhores antigos amigos.  Mac parou junto  caixa de areia e acrescentou:  Venham, vamos para casa.
As crianas relutaram em deixar o playground. Mas quando Elly viu o rosto carrancudo do tio seu argumento morreu e ela pegou na mo de Simon.
Sem dvida pensaram que Mac estava zangado com eles, Paris admitiu. Ela apanhou a sacola de fraldas e os brinquedos e foi para o carro. Mac parecia no prestar ateno nela e nem nos sobrinhos.
O trajeto da volta foi feito em silncio. Em casa, Paris preparou depressa o almoo. As crianas comeram muito pouco, pois estavam exaustas. Ela colocou-os na cama para uma sesta e foi  procura de Mac.
Ele no almoara e ocupava-se arrancando ervas daninhas que cresciam em volta da casa.
To logo Mac a ouviu se aproximando, retesou o corpo e comunicou:
	Nunca mais irei  cidade.
	Por causa do que aquele homem disse?
	Aquele homem era Burt Dexter.
	Dexter...  Paris repetiu, franzindo a testa. Onde ouvira esse nome antes?  Oh, ele  parente de Marva Dexter? Conheci-a na loja de Becky.
	Eu sei. O marido dela, Pete, era irmo de Burt. O filho deles, Fred, e o filho de Burt, Steve, eram meus melhores amigos. Estvamos sempre juntos, ns trs. Trabalhamos juntos, eu fazendo plantas de edifcios e contratando-os. Fred ocupava-se da parte de concreto, Steve inspecionava.
	Parece-me um bom arranjo  Paris opinou.
	E foi at Fred comear a jogar e a arrastar Steve com ele. As famlias dos dois me culparam por tudo o que houve.
	Por qu? Voc no tinha nada a ver com isso.
	Porque sempre fui o lder do grupo. Quando crescemos, sempre dirigi todas as brincadeiras. Foi minha a idia de pr Fred no negcio de concreto porque queria algum em quem pudesse confiar. Sabia que ele havia tido o vcio do jogo mas achei que a fase passara. Tambm, queria ajud-lo nos negcios. Ajudei-o, sim, at o dia em que ele foi preso.
 Como pode se culpar por isso, Mac? Becky me contou que Fred fizera a mistura errada no concreto da construo da escola que ruiu por causa disso, e que voc no sabia de nada.
	Mas eu devia ter sabido  disse Mac.  No ignorava que Fred estava tendo problemas, ele sempre tinha problemas, mas isso nunca afetou antes a qualidade do trabalho em si. No momento da inspeo ele pagou a Steve para no revelar nada. Steve era seu primo, sentiu pena de Fred e a lealdade de famlia entrou em cena. A quantia roubada foi enorme, e valeria o risco se o roubo no fosse descoberto.
	Isso  horrvel. O que aconteceu com eles?
	Fred perdeu sua licena de construtor, Steve perdeu o emprego, e ambos foram condenados  priso por algum tempo. Sero libertados logo.
	E voc, Mac? O que aconteceu com voc?
	No fui preso, mas muito prejudicado financeiramente  Mac respondeu com honestidade.  Perdi minha reputao, minha empresa, tudo exceto esta casa, que vou conservar para irritar meus antigos amigos de Cliffside, se no por outra razo.
Paris sentiu uma tristeza profunda. J sabia de tudo mas ouvir a histria contada por ele foi muito pior, porque Mac controlava as emoes que o perseguiram desde que soubera da traio dos amigos.
	Por que Burt, o resto da famlia Dexter e todos em Cliffside culpam voc?  Paris perguntou.
	Porque, como j lhe disse, eu era o lder, o que resolvia todos os problemas do grupo. E agora, no quero que Elly e Simon sofram. No lhe contei nada antes, pois imaginei que as crianas iriam embora logo, mas recebi um telefonema de Sheila esta manh enquanto voc estava no banho.
	Oh?
	Ela no tinha nada de novo a dizer exceto que adorava o trabalho que fazia com Roger, seu novo namorado, o fotgrafo. Quase no pronunciou uma palavra sobre os filhos.
	Oh, sinto muito, Mac. Ela no sabe o que est perdendo, e...
	Acho que ela no se importa. O ponto  o seguinte, terei de ficar com as crianas por mais algum tempo. E mesmo depois que ela voltar, continuarei presente na vida deles. Vou reconstruir minha empresa e minha reputao para que Elly e Simon no precisem crescer me defendendo. E no permitirei que algum como Burt ou qualquer outra pessoa desta cidade os magoe.
	Seria horrvel  Paris sussurrou.
	Voc no tem idia de como!
	 terrvel ter os prprios amigos contra  Paris continuou.  Foi o que aconteceu com meu marido.
	O que houve com seu marido, afinal?  Mac sentou-se numa pedra e fez um gesto convidando-a a se sentar tambm.
Paris obedeceu e, olhando para o mar, comeou a falar:
 Keith e eu nos casamos assim que samos da universidade.  como fazem muitos jovens em lugares pequenos como Hadley. Por qualquer razo, no pensamos que somos parte de um mundo maior e achamos que no temos outras opes. Pobres jovens apaixonados! Keith e eu ramos duas crianas, acostumados a ter tudo o que desejvamos, mimados pelos pais. Keith j havia herdado boa quantia em dinheiro dos avs e depois teve ainda mais quando os pais se retiraram da cidade deixando uma plantao de frutas ctricas para ele. Meus pais possuam um pequeno stio onde eu nasci. Tnhamos uma vida confortvel, ainda que no luxuosa. Keith e eu estvamos com vinte e dois anos e nadando em dinheiro. A nica coisa pior do que dois jovens tolos  dois jovens tolos com mais dinheiro do que necessitam.
	Gastar seu prprio dinheiro no  crime, Paris  disse Mac quando ela se calou por alguns segundos.
	No, mas desperdiar  um crime contra a alma da pessoa. Keith e eu comeamos a pensar que o dinheiro estaria sempre l, que se reproduziria por si sem necessidade de cuidado ou ateno de nossa parte. Keith negligenciou seus negcios e eu encorajei-o a fazer isso.
Mac fitava-a parecendo no entender e Paris no podia culp-lo por isso.
	E assim o dinheiro acabou?  ele quis logo saber.
	Sim, e com a ajuda de nossos "amigos". No levou muito tempo para esses amigos ficarem ricos com o nosso dinheiro. Quando me dei conta do que acontecia, no consegui fazer Keith ver que jogava fora nosso futuro. O pai dele chegou a vir de San Diego, para onde se retirara, e tentou conversar com o filho. Mas Keith no o ouvia. Ele j estava to habituado a esbanjar dinheiro durante tantos anos que era difcil demais parar. Nunca fora muito popular na escola por ser tmido, quieto. No conhecia outro mundo fora de Hadley, e nem queria conhecer. Sabe, l ele era um grande peixe num pequeno lago, um jovem importante no local. Na verdade, no tinha cabea para negcios como o pai, mas podia comprar amigos. E foi o que fez.
Paris parou de falar. A tristeza ainda pesava em seu corao, em especial por sentir que deveria ter feito mais para impedi-lo de continuar jogar dinheiro fora.
 Com o passar do tempo ele perdeu tudo  Paris prosseguiu com lgrimas nos olhos.  Teve de vender a casa da famlia, o escritrio, e a fazenda de frutas ctricas que fora deles desde o incio do sculo. No sobrara nada exceto os maus investimentos e as dvidas.
Como com voc. As palavras no pronunciadas pairaram no ar, entre eles. Um tremor dos lbios de Mac disseram-lhe que ele sabia o que Paris estava pensando.
	Keith no pde salvar nada  ela explicou , e quando se deu conta do fato, desistiu de lutar. Estranho, mas acho que at ficou contente quando apanhou pneumonia, doena que o matou. De acordo com os mdicos consultados, o tipo de pneumonia que ele teve s matava quando o doente desejava morrer.
	Sinto muito por tudo o que aconteceu, Paris  disse Mac, penalizado.  Por isso voc saiu de sua cidade natal?
	Foi. No sobrou nada para mim l. Nada de famlia, poucos amigos. E eu no queria contato com eles. A razo de eu ter escolhido uma colega de escola, Carolyn, como referncia, foi o fato de ela no ter feito parte dos que rodeavam Keith; nunca lhe pedira dinheiro. Veja, muitas pessoas em Hadley ficaram com raiva de mim uma vez que comecei a tentar convencer meu marido a no esbanjar seu dinheiro. Nosso dinheiro, alis.  claro que essa gente no daria boas referncias minhas.
Por que motivo Paris se sente to culpada?, Mac se questionou, furioso. Ela foi a pessoa ferida.
 Levei algum tempo para enxergar as coisas claramente  Paris disse, sorrindo com suavidade.  E irnico voc ter essa enorme casa vazia, localizada na costa, enquanto eu tenho um depsito cheio de mveis em Hadley. H coisas de minha famlia das quais no consegui me separar. Coisas minhas tambm, e de excelente qualidade. Devia ter vendido tudo, mas no vendi. Apatia, creio. Mas, de qualquer maneira,  o que me liga ao passado.
	Com certeza ter suas coisas de volta um dia.
	Suponho que sim.
Mac comeou a estender-lhe a mo em forma de conforto. Mas arrependeu-se. Paris tinha a cabea abaixada, numa atitude de perplexidade. Ele era a ltima pessoa no mundo a lhe oferecer conforto, pois no tinha nada para dar. Mac sabia disso, porm sentiu como se algo mudasse em seu interior. No queria se sentir assim. Como podia ficar furioso com o mundo, continuar com a meta de pagar suas dvidas, reconstruir seu negcio e reputao, se comeava a ter piedade dos outros?
Contudo, desejava Paris. Tivera cime dela quando sara com Grey, queria fazer amor com ela, abra-la, confort-la. Mas, como poderia? Essa sua habilidade no morrera quando se entregara  ambio, focalizando sua meta de tal forma que tudo o mais referente  vida, ao romance, estava bloqueado?
Pela primeira vez achou que sua meta era algo absurdo. No, impossvel. Ele no poderia ter passado tanto tempo pensando numa nica coisa, planejando, para nada.
No querendo mais pensar em seu caso, perguntou a Paris:
	Voc pretende voltar para l?
	No  ela respondeu com firmeza.  No h nada para mim l. No seria bem recebida e isso me magoaria muito. E voc, Mac? Perdoar algum dia as pessoas de Cliffside?
	Perdo-las?  Mac nunca pensara nas coisas nesses termos.  Por qu?
	Eram seus amigos, pessoas que conheceu durante toda sua vida, mas que tm idias errneas sobre voc.
	E acha, por acaso, que querem meu perdo? Caia na real, Paris. Ningum na cidade se importa comigo.
	No por eles, Mac, mas por voc. Para seu bem.
	No preciso disso. Preciso, isso sim,  ser deixado em paz.
	 verdade que o tempo se incumbe de cicatrizar feridas, ou ao menos de fazer crescer uma crosta sobre elas, mas deve haver um meio de apressar o processo. At voc perceber que precisa perdoar essas pessoas e abafar sua ira, essa cicatrizao jamais ter lugar.
	Voc parece um ministro da igreja falando  ele disse.
	Estou apenas dizendo a voc o que aprendi nos ltimos dois anos. Amargor no fere ningum, exceto a pessoa amarga.
	Oh, chega disso. Agora voc soa como uma psicloga.
	Melhor do que autocomiserao.
	Autocomiserao?  Mac fitou-a como se no pudesse acreditar no que ouvira.  Posso lhe garantir que  a ltima coisa que estou sentindo.
	Mesmo? Como chamaria o que est sentindo, ento? Escondeu-se na cidade at seus sobrinhos aparecerem para ficar, e at recentemente no queria que eles chegassem perto dos moradores daqui.
 J lhe disse por que.
Paris ignorou-o.
 No deixa ningum chegar perto deles, me parece, a menos que prove possuir algum valor, que valha a pena ter esse algum por perto.
	Bobagem. Contratei voc, no contratei?
	Bem. E acho que minha prxima pergunta ser se provei ou no ser valiosa. Concorda, Mac?
Ele respondeu, com voz grave:
 Penso que provou. Quis dormir com voc, no quis?
Atnita, desapontada, Paris deu um passo adiante.
Lentamente, sacudiu a cabea de um lado para o outro, como se no tivesse podido entender bem o que ele dissera.
Com expresso triste no olhar Mac ergueu a mo a fim de reconduzi-la para perto de si.
Paris afastou-se, deu-lhe as costas, e correu para dentro da casa.

CAPTULO X

Paris!  Horrorizado com o que dissera, Mac chamou-a, porm ela entrou em casa e tentou bater a porta. Ele correu e chegou a tempo de segurar a porta aberta. De quem era aquela casa, afinal? Paris no tinha direito de bater a porta em sua cara.
Mas ele desistiu. Afinal, merecia aquele comportamento de Paris. Desgostoso consigo mesmo, voltou ao jardim, desejoso de apagar o que dissera.
Deus, o que havia com ele? Nunca antes magoara uma pessoa intencionalmente.
Quando esse pensamento surgiu em sua mente, Mac pulou como se algum lhe houvesse dado um pontap. Estaria Paris certa? Teria ele se afogado na autocomiserao de tal modo que todos os seus pensamentos giravam em volta de Cliffside, das pessoas do local, e do modo como o julgaram?
Amargor no fere ningum, exceto a pessoa amarga.
Estaria ele amargo? Amargor era um caminho que no levava a parte alguma, um sentimento improdutivo.
Como autocomiserao.
 Oh, cus!  Mac exclamou. Que pena no poder afastar da cabea a lembrana das palavras de Paris.
 Cus!  Paris lamentou ao entrar na cozinha. Quis bater a porta de novo para mostrar a ele como estava furiosa. Em vez disso comeou a andar pela cozinha, da geladeira  janela, depois ao fogo onde apanhou a chaleira a fim de preparar um ch. No, se fizesse isso, teria de ficar perto de Mac mais uma vez.
Deu outra volta pela cozinha e foi  janela. Viu-o trabalhar no jardim, arrancando as ervas daninhas e jogando-as ao lado, to facilmente como parecia querer jog-la ao lado de sua vida.
Paris ficou mais furiosa ainda ao ver que Mac trabalhava como se nada de importante houvesse acontecido, como se nada a tivesse ferido. Foi  sala e, pela janela, olhou para o mar.
Quis dormir com voc, no quis?
Como Mac pde lhe dizer coisa to odiosa? Considerava o amor que ela sentia de to pouco valor? Pior do que pouco valor, mas sem valor. Na verdade Mac no sabia que ela o amava, mas no ignorava que tipo de mulher era. Sabia, no sabia?
Frustrada, Paris escorregou as mos nos cabelos. Mac no sabia que tipo de mulher era ela? Talvez no.
O que pensou, ento, quando a beijou? Imaginou-a uma viva solitria, necessitada de sexo?
No. Paris esfregou os olhos. Para Mac, as pessoas precisavam provar que eram valiosas muitas e muitas vezes antes de ele poder aceit-las como tal. Talvez ele no tivesse sido sempre assim. Afinal, amara seus pais, cuidara da irm, aceitara os filhos dela. No seria aquilo amor? Ou apenas um sentido de responsabilidade?
Triste, concluiu que Mac no queria seu amor. Perdia seu tempo l.
No precisava ficar, pensou. Poderia ir embora. No passado, abandonara vrios lugares e coisas: seu local de nascimento, seu lar com Keith, suas lembranas, mesmo as boas. Poderia abandonar o teimoso do Mac Weston num estalar de dedos.
Decidida a partir imediatamente, correu para seu quarto. Ao passar pelo quarto das crianas viu Elly quase caindo da cama. Mais um movimento e a menina estaria no cho.
Pondo de lado sua fria contra Mac, correu e entrou no quarto das crianas na ponta dos ps. Ajeitou Elly na cama, calou-a com um travesseiro para que no rolasse de novo. A menina agarrou o coelhinho bem perto do peito.
Virando-se, Paris chegou perto do bero de Simon que tinha junto a si seus preciosos livros.
Menino interessante, esse Simon, ela refletiu. A maioria das crianas adorava brinquedos, como Elly com seu coelhinho, mas Simon adorava livros.
Paris respirou fundo. Tinha certeza de que no poderia abandon-los, em especial no to abruptamente. Amava-os. Claro, Mac poderia encontrar algum para cuidar dos sobrinhos. A me de Becky, June, faria isso com certeza. Porm seria demais para os dois sofrer outra mudana. J haviam mudado muito nas ltimas semanas.
O dio de Paris por Mac comeou a diminuir e ela pensou mais claramente.
No, no iria embora. Precisava ficar. Mas tinha de ser de acordo com suas determinaes. Mac podia ser o patro, porm no teria mais as coisas feitas de acordo com sua vontade.
Paris saiu do quarto das crianas e foi ao prprio quarto. Pegou o dirio que vinha mantendo havia algumas semanas e registrou tudo o que pensava sobre Mac. Enquanto escrevia, elaborou um plano.
 Preciso falar com voc.
Mac virou-se. Esperara por isso a tarde toda. Paris preparara e servira o jantar numa atmosfera fria o suficiente para congelar azeite fervendo. Vestira um jeans bem justo e uma blusa coral que clareava ainda mais sua pele. O rabo-de-cavalo fazia-a parecer uma adolescente pela qual o infeliz Keith Barbour se apaixonara. Estava to linda que fez Mac arder de desejo, porm ela mal o encarou.
Durante a ltima hora, Paris no se animara a entrar em entendimentos com Mac porque as crianas estavam sempre presentes. Mas agora os dois brincavam na sala, muito felizes.
	Sim, Paris, fale. O que h?
	Assim que voc contratar uma bab competente, farei meus planos para sair...
	Paris, eu...
	Por favor, deixe-me terminar. Espero que voc me d uma carta de recomendao. Acho que fiz um bom trabalho aqui, e criei um lar para seus sobrinhos. Posso fazer o mesmo em qualquer outra casa, porm me sentirei melhor se tiver uma recomendao sua.
	Claro... naturalmente...  ele gaguejou.  Mas no precisa ir embora.  Mac estava  beira do pnico. Por que lhe falara coisas to ofensivas? Paris nem ao menos o deixara pedir desculpas. Cada vez que tentava, ela lhe cortava a palavra.
	Depois que voc encontrar outra bab, por que haveria eu de ficar?
Boa pergunta. Excelente pergunta. Paris no ficaria por ele, disso Mac tinha certeza.
Mas no poderia deix-la ir. Sabia disso to claramente como sabia que a magoara.
No permitiria que tudo acabasse daquela maneira, ele decidiu com sbita deciso.
 Mas vou precisar tambm de uma governanta para a casa  Mac declarou, agarrando-se a qualquer desculpa.
 Tenho certeza de que no encontrar dificuldade.
Dando um passo  frente, ele enfim disse:
	Paris, sinto muito pelo que lhe falei. Agi como um canalha.
	Verdade. Agiu. Voc no precisa concordar com tudo o que eu lhe disser, Mac, nem mesmo me ouvir, mas no tem escutado ningum exceto sua ira, e por longo tempo j. O problema  seu, no meu, por isso no tem que descarregar em mim sua mgoa.
	Paris, eu no quis dizer...  Mas ele j dissera aquilo e ambos sabiam. Mac ignorava o que falar agora porque, qualquer coisa que dissesse, Paris rebateria contra ele com argumentos verdadeiros. Resolveu fechar a boca antes de sair mais ferido ainda da discusso.
Quando parou de falar, Paris saiu da sala e convidou Elly e Simon para um passeio. Os trs saram deixando Mac s. Observando-os, ele se perguntou como conseguira criar tamanha confuso. De algum modo achava a perda de Paris pior que a dos dois melhores amigos que o traram. Ao menos no caso dos amigos no cometera nenhum erro. E tambm seu corao no estava envolvido.
Quando Mac saiu para o trabalho na manh de segunda-feira, Paris sentiu que sua tenso a sufocava. No tinha certeza se deixaria aquela casa, pensou, ao ouvir o rudo do carro de Mac tomando o caminho da estrada.
Falara calmamente que ficaria at ele contratar outra bab, mas quando seria isso? Mac poderia encompridar esse tempo por anos e ela gostava tanto das crianas que poderia ficar l o tempo que fosse necessrio por medo de que fosse contratada uma pessoa que no as amasse de verdade.
Paris sabia muito bem que no poderia morar na mesma casa com um homem que ela amava, mas que no retribua seu amor. A tenso a deixaria louca. Mas no via soluo para seu caso.
 Venha, Pris.  De pijama, na sala, os cabelos em desordem, arrastando seu inseparvel coelhinho, Elly a chamava.  Precisamos nos aprontar para ver Becky.
Paris carregou a menina, dizendo:
 Tem razo. E vamos ao parque, tambm.
A nica coisa boa que acontecera naquele fim de semana foi que Mac desistira de sua proibio da ida das crianas  cidade. Talvez ele houvesse chegado  concluso de que tudo de mal j acontecera. Para Paris isso significava que poderia encontrar companheiros para Elly e Simon por intermdio de Becky. Alis, algo que ela desejara fazer muitos dias atrs.
Quase ao meio-dia ela e as crianas subiam os poucos degraus da loja de Becky. Como sempre, Floyd e Benny estavam do lado de fora, s que dessa vez sentados num banco na frente do edifcio. Paris olhou-os de soslaio, desejando que no estivessem l.
Elly correu para perto dela assim que os viu. Paris deu-lhe a mo e carregou Simon. Entraram na loja.
O toque de uma sineta chamou a ateno de Becky que foi para a porta. Sorriu quando viu as crianas.
 Al, queridos  disse.  Venham dar um abrao na tia Becky.
Elly no esperou por um segundo convite. Correu para Becky e abraou-lhe as pernas.
	O que tm feito?  Becky perguntou, sorrindo.
	Oh  Elly respondeu , primeiro andamos um pouco a p no parque e depois viemos aqui.
O dilogo foi interrompido por outro toque da sineta, e os irmos Lyte entraram na loja.
 Floyd e Benny  disse Becky , se vo comprar alguma coisa, sejam bem-vindos. Mas se no, voltem para o lugar de onde vieram.
A grosseria de Becky no os intimidou. Os dois homens dirigiram-se a Paris.
	Al, sra. Barbour, por onde anda Mac hoje?
	Onde a maioria das pessoas est numa segunda-feira pela manh. Trabalhando.  Paris podia estar magoada e desapontada com Mac, mas ainda o amava e no deixaria que aqueles dois falassem mal dele.
	Bem, ele pode se considerar feliz por estar livre para trabalhar e no na cadeia.  Floyd esboou um sorriso maldoso.
	Por que deveria ele estar na cadeia por um crime que no cometeu?  Paris protestou.
	H pessoas nesta cidade que acham que ele sabia o que Fred e Steve estavam fazendo. Afinal, os trs faziam tudo juntos desde meninos.
Paris ia responder mas foi interrompida por outro toque da sineta da porta. Ela ergueu a cabea e viu Burt Dexter seguido de sua cunhada Marva.
 Simon quer descer  o menino disse. Geralmente ele gostava de ser carregado, mas vira Becky dar uma bala a Elly e queria sua parte. Paris colocou-o no cho.
Em seguida, ela enfrentou Floyd:
	Mac no sabia o que seus dois amigos estavam fazendo.
	Bem, eu...  Floyd ia dizendo, porm Paris interrompeu-o.
	Ser que j ocorreu a voc ou a qualquer outra pessoa desta cidade que todos pararam no tempo? No conseguem ir adiante do que se passou dois anos atrs. Vivem no passado. O que acha disso, Floyd?  Ela olhou para o grupo ali parado e teve pena dos Dexter. Haviam sido humilhados e queriam culpar algum, ela concluiu.  Parece-me que Mac foi o nico que conseguiu passar por tudo isso e seguir adiante na vida. No estacionou.
Do lado de fora, Mac parou com a mo na porta de tela, pronto para abri-la. No podia acreditar no que ouvia. Paris o defendia? Ele estava a caminho de Alban a fim de comprar mais telhas para a casa nova, quando viu o carro de Paris estacionado em frente  loja de Becky.
Parou e ouviu a conversa, decidido a entrar ao primeiro sinal de briga.
	Voc no sabe o que est falando  Burt Dexter dizia.
	No sei? Quem foi que vendeu tudo para pagar o que achou que era de sua responsabilidade?
	Mas era responsabilidade dele  Floyd afirmou.
	Pagou, por achar que devia isso  comunidade, mas no estava pagando por um crime que no era seu. Pagava por algum mais. Pagava pelo crime de seus melhores amigos.
Ningum deu uma palavra. Os membros da famlia Dexter no a fitavam. A sala estava to silenciosa que se podia ouvir Simon chupando a bala que Becky lhe dera.
Burt foi ao encontro dele, com as mos estendidas.
 A culpa foi minha, Mac. Alimentei esse amargor porque no queria admitir que Fred e Steve haviam agido erradamente. Mesmo depois do julgamento, continuei negando. O que voc me falou no parque outro dia estava certo. Se no esquecer minha ira, essa mesma ira me matar.
Mac apertou a mo de Burt.
 Sim  ele disse.  Algum chamou minha ateno de que o amargor s fere a prpria pessoa.
Burt saudou a todos e virou-se para sair. Marva apertou a mo de Mac e sorriu para Paris antes de se retirar com Burt.
Floyd e Benny imitaram os dois, mas, antes de sair, Benny pediu:
	Mac, quando voc comear a construir de novo, avise-nos. Gostaramos muito de trabalhar com voc.
	Claro, Benny  disse Mac.  Ficarei muito contente em ter a ajuda de vocs.
	Juro que jamais imaginei ver isso!  exclamou Becky to logo o grupo se retirou, dando um suspiro de alvio.  Acho que as coisas vo caminhar muito melhor nesta cidade deste momento em diante.
Mac ia falar, mas Elly correu para perto do tio e beijou-o. Queria a ateno dele.
Os olhos de Paris encheram-se de lgrimas. Tudo o que desejara para Mac acontecera no espao de alguns minutos.
	Estou com fome!  Elly enfim exclamou, olhando de um adulto para o outro.  Becky tem sanduches e limonada na loja.
	Limonada? Que bom!  Simon disse, sacudindo a cabea.
	Por que no irmos almoar em casa?  Mac sugeriu, rindo muito. Ele passou o brao em volta da cintura de Paris.  Preciso falar com Paris em particular.
	O que  em particular?  Elly perguntou.
	Isso quer dizer que nenhuma menina curiosa deve estar por perto  ele respondeu, beliscando-lhe o nariz.
Os quatro saram e Becky fez um sinal encorajador para Paris.
Acomodando as crianas em seu carro, Paris seguiu na frente e Mac logo atrs.
Em casa, todos entraram e ela apressou-se em preparar o almoo. A tenso aos poucos se evaporava.
Paris queria dizer a Mac como estava orgulhosa pelo modo como ele se comportara com os Lyte e os Dexter, na cidade. Tudo ficara bem esclarecido agora.
Mac piscou para ela, sorrindo. Embaraada por estar olhando para Mac sem parar, havia algum tempo j, Paris corou e Elly lhe perguntou:
	Pris, por que seu rosto est to vermelho?
	Por nada  Paris respondeu. Por trs dela Mac sorriu de novo.
Enquanto Paris preparava os pratos das crianas, o telefone tocou. Mac segurou o fone com uma das mos e com a outra ps o leite nos copos.
 Sim, aqui  Mac Weston  ele disse, e depois ficou muito quieto. Paris logo adivinhou que devia ser Sheila.  Um instante, vou atender no outro aparelho.
Ele foi para o quarto pedindo antes a Paris que desligasse o telefone depois que ele atendesse do quarto.
Embora estivesse muito curiosa para saber de que se tratava, caso fosse mesmo Sheila, Paris continuou com as crianas vendo se comiam tudo. Mac no voltava e ela levou Elly e Simon para a cama a fim de que descansassem.
Ao passar pelo quarto de Mac, ouviu-o numa conversa tensa. Parecia muito zangado.
Mal conseguindo se concentrar, Paris leu dois livros para as crianas e depois insistiu que dormissem.
Pela porta aberta do quarto de Mac viu-o sentado na beirada da cama, de cabea baixa e mos entre os joelhos.
 Mac?  ela disse, entrando e fechando a porta.  O que houve?
Ele no respondeu logo. Estava muito abatido. Alarmada, Paris sentou-se ao lado dele.
	Mac?
	Era Sheila. Ela desistiu.  Mac sacudiu a cabea vagarosamente e encarou Paris.
	Desistiu? Desistiu de qu, Mac?
	Dos filhos. De Elly e de Simon. Disse que no foi feita para ser me. H muitas outras coisas que deseja fazer. Seu novo namorado ganhou um tipo de concesso para fotografar uma manada de elefantes durante um ano e Sheila vai ser sua assistente. Depois disso, quem sabe o que acontecer? Porm ela no quer mais ser me. No pretende voltar, Paris. Vai me dar os documentos legais para a guarda de seus filhos. Eu deverei cuidar deles at a maioridade. No serei mais um tio, porm um pai.
Com os olhos arregalados, Paris disse:
	Isso no pode ser verdade.
	 a pura verdade.
	Ela vai lhe dar os filhos como se fossem...
	Cachorrinhos vira-latas  declarou Mac com tristeza na voz. Seu desapontamento com comportamento da irm era profundo.
	Ao menos eles esto com voc, Mac. Pretende... pretende ficar com os dois, no?
	Naturalmente.  Mac surpreendeu-se com a pergunta.
Aliviada, Paris sorriu.
	Tudo bem, ento  disse.  Eles amam voc e voc os ama. Tudo vai funcionar bem.
	No. No, no vai.
	Por que no?
	Porque voc no estar aqui.
	Eu... eu disse que ficaria por algum tempo, e...  A idia de abandonar as crianas deixou-a doente. O pensamento de deixar Mac j havia sido difcil de aceitar, mas Paris vinha tentando aceitar o fato durante todo o fim de semana. Porm, a idia de deixar as crianas era demais. Contava que mais cedo ou mais tarde a me as levaria, de qualquer maneira. Ela engoliu em seco.  Ficarei por enquanto.
	No. No quero que fique apenas por enquanto, quero que fique para sempre.
	Como? Mac, acho que no posso...
	Case-se comigo  ele disse bruscamente.

CAPTULO XI

Casar-me com voc?  Paris no poderia ter ficado mais chocada se ele a tivesse chicoteado.
	No v? Seria a soluo perfeita.  Mac comeou a andar pela sala, da porta  janela e de volta  porta.  Voc ama Elly e Simon, no  mesmo?
	Naturalmente... mas...
	Criou uma rotina para eles. Ser mais fcil para os dois aceitar que a me no vai voltar, tendo certeza de que voc ficar aqui.
	Sim  Paris respondeu , mas h mais do que isso a se considerar.
	O qu? Gosta daqui, no gosta? E no tem para onde ir.
Essa ltima declarao no soou muito amvel para Paris. Levantou-se e encarou-o, dizendo:
	Afinal, no sou uma rf sozinha no mundo, Mac. Posso sempre ir para a casa dos pais de Keith em San Diego. Na verdade, eles querem que eu v e...
	Mas voc quer ir?
	No, mas tambm no sei se quero me casar com voc. Que tipo de casamento seria esse? Casando-me por causa das crianas?
	Elas precisam de ns dois.
	H certas coisas de que eu preciso, Mac.
	O qu? Segurana,  isso? Tem medo por causa das dvidas que estou pagando? No se preocupe, est quase tudo pago. As coisas podem ser um pouco difceis durante mais alguns meses, mas tudo estar bem no prximo vero. Uma firma de arquitetos em Alban me convidou para trabalhar l. Posso fazer isso.  Ele sacudiu os ombros.  Quero ser independente, meu prprio chefe, e eles propuseram que eu ficasse scio da firma. Cuidarei de voc, Paris.
	No  isso, Mac.  Ela j estava meio desesperada sem saber como explicar-lhe a verdadeira razo.
	No precisamos nos preocupar com Elly e Simon porque nosso pai deixou um fundo para Sheila e ela passar esse dinheiro para mim. Sheila quer cuidar dos filhos, mas no pessoalmente.
	No  isso, Mac  Paris repetiu.
	 por causa do que eu lhe disse sobre o fato de eu a convidar pura dormir comigo? Que consistia na prova necessria? Desculpe, Paris, fui um canalha...
	No, Mac.
	Ento, o que ? Tentei dar uma resposta a todos os receios que voc pudesse ter.
	E o amor, Mac?
	Amor?  ele repetiu, com voz estrangulada.
	Voc sabe que se trata de uma emoo que um sente pelo outro quando decide se casar, no sabe?  Sinto essa emoo por voc, ela pensou mas no disse nada.
	No acha que h um pouco de exagero nisso, Paris?
	Exagero?
	Quantas pessoas neste pas casam-se acreditando estar apaixonadas e lamentam o que fizeram mais tarde? Voc mesma disse que foi o que aconteceu com voc e seu marido.
 Oh, Mac, no se trata da mesma coisa. ramos quase adolescentes quando decidimos nos casar...
Enquanto Paris refletia sobre o caso, Mac abraou-a puxando-a para bem perto dele.
 E h isto  Mac disse, roando seus lbios nos dela.
Sim, Paris pensou, havia aquilo, sem dvida. Ela desabotoou-lhe a camisa, enfiou a mo por baixo do tecido e sentiu a fora dos msculos dele. A boca de Mac era quente, excitante, suave, mas Paris ainda sentia que estava sendo enganada. O que significava a atrao fsica no havendo amor? Ela queria mais do que aquilo. No queria?
	Vou telefonar para meu chefe  Mac declarou  e lhe dizer que tenho algo importante a fazer e que no irei trabalhar no resto do dia. Pretendo tratar da custdia permanente de Elly e Simon. Enquanto fao isso, pense sobre nosso casamento.
	Certo.  Como se houvesse chance de ela pensar em qualquer outra coisa.  As crianas esto dormindo. Enquanto isso, irei a... um lugar... para...
	Para pensar  Mac terminou por ela. Beijou-lhe a testa como se quisesse despertar-lhe o bom senso.
	Para... para... refletir  Assim dizendo, Paris foi olhar as crianas, pegou sua bolsa e entrou no carro.
Admitiu ir a San Francisco, pois teria bastante tempo para pensar. Mas mudou de idia e tomou a direo de Alban. Ao passar por Cliffside, foi  loja de Becky quase sem se dar conta disso.
Entrou e ficou olhando para alguns fregueses que estavam l.
	O que h?  Becky lhe perguntou, estranhando o aspecto dela.  Alguma coisa aconteceu depois que voc saiu daqui? Com Mac? Com as crianas?
	Todos esto bem  Paris respondeu, e caiu em pranto.
	Oh, meu Deus!  Becky exclamou.  Com licena, amigos  Tenho de cuidar de um caso importante e preciso fechar a loja por alguns minutos.
Todos saram e ela trancou a porta.
	Sinto muito o incmodo que estou lhe dando  Paris desculpou-se.
	No se preocupe com meus fregueses. Agora, conte-me o que houve.
	Estou apaixonada por Mac.
	Est?  Becky perguntou, mas no pareceu nada surpresa.
	Mas isso no  tudo. H algo... pior.
	Pior?
	Ele me pediu em casamento.
	O imperdovel cafajeste!
	Foi o que pensei  Paris sussurrou.
	Oh, por que pensou isso?
	J lhe contei. Porque eu... o amo  Paris confessou de novo.  E ele no me ama. Disse que estou exagerando o valor do amor, que a maioria das pessoas se casa num impulso e... no se casaria se fosse pensar nessa balela de amor.
	Ele provavelmente esteja certo.
	Voc no concorda com ele, concorda, Becky? Diga que no concorda.
	Querida, voc  que tem de concordar ou no.
	Bem, eu no concordo.
	Por qu, Paris?
	Porque quero o amor.
	E acha que ele existe apenas numa nica forma?
	Como?
	Paris  disse Becky, aps minutos de silncio , desde que a conheci fiquei contente por v-la na vida de Mac, embora temporariamente como governanta e bab.  Becky serviu-lhe um refrigerante.  Beba  disse.  Est precisando de uma dose de cafena e acar. Mas, como eu ia dizendo, fiquei contente porque voc  uma das pessoas mais equilibradas que conheci. Pode no ter sido fcil viver com ele, tomando conta de duas crianas que no conhecia, e que ele no queria conhecer por medo de am-las e depois perd-las. Porm voc arriscou, fez isso e eu a admiro por esse motivo. Ele tambm a admira, tenho certeza, mas no sabe como se expressar.
	Continue  Paris pediu.
	Onde quero chegar  dizer-lhe que ele confia em voc. No confiou em ningum nestes ltimos dois anos. Como poderia? Os amigos o traram, a cidade voltou-se contra ele, a noiva esvaziou-lhe a casa e o abandonou, a irm mandou-lhe os dois filhos. E agora, confiana  tudo o que ele tem para dar.
	Voc acha, Becky, que confiana  igual a amor?
	De certa forma, . O amor  construdo com base na confiana.
	E acha que eu devo me casar com ele?
	No cabe a mim dizer-lhe o que deve fazer. A deciso  sua.
Paris se acalmou um pouco quando as palavras de Becky comearam a fazer sentido para ela. A esperana comeou a brilhar em seu interior. Se ele tivesse confiana e ela amor, talvez fosse suficiente para construir uma vida de casados. Seria um incio com mais maturidade do que o dela e Keith quando se casaram.
 Acabe de beber o refrigerante, Paris, volte para casa e conte a Mac sua deciso : Becky ordenou.  Qualquer que seja, voc no vai feri-lo, ferir as crianas ou se ferir.
Sorrindo, Paris teve certeza de que a amizade delas duas estava bem cimentada e que no seria afetada pelo que ela escolhesse fazer sobre a proposta de Mac.
 Caso tudo d certo, quero um vestido que me transforme numa noiva lindssima.
"Onde est ela?", Mac se perguntou, espiando pela janela. De qualquer maneira, no devia t-la deixado sair. Deveria conserv-la trancada no quarto at concordar em se casar.
Errara o tempo todo. Claro que desejava se casar, pois teria tima ajuda no caso das crianas, mas deveria ter sido um pouco mais romntico. Mulheres gostam de coisas romnticas: velas, rosas, vinho, juras de amor de joelhos. Ele poderia ter feito tudo aquilo. Bem, excluindo-se a parte dos joelhos. Seria ir longe demais.
Elly, que acabara de acordar da sesta, mas ainda sonolenta, apareceu. Pegou na mo do tio, sempre abraando seu coelhinho inseparvel.
 Onde est Pris?  perguntou.  Quero que ela venha para casa agora.
Mac pegou a sobrinha e sentou-se numa cadeira da cozinha, com ela no colo.
 Eu tambm quero  sussurrou, encantado com o modo como a menina encostava a cabea em seu peito parecendo ter todos os motivos para acreditar que nada lhe aconteceria estando com o tio. Por que Paris no era assim?, Mac se questionou. Por que no confiava nele como Elly confiava?
Censurou-se depois. Estava sendo ingnuo demais. O que uma mulher adulta queria era bem diferente do que uma menina de quatro anos desejava. Mac sentiu a garganta apertada e disse:
	Ela vai voltar logo.
	Bom  Elly respondeu, e bocejou.  Eu vi um passarinho l fora. Quero contar isso para Pris. Ela gosta quando lhe conto coisas.
	Eu tambm gosto.  Mac beijou-lhe o alto da cabea.  Conte para mim.
Elly comeou a lhe contar ento uma histria sobre um passarinho que ela vira na janela do quarto. Estava perdido e procurava por sua famlia. Enquanto falava, Mac percebia os pavores da menina de ficar sem Paris. E faria tudo, moveria cus e terra para dar a Elly e a Simon o lar que eles necessitavam.
J falara com seu advogado para o encaminhamento da adoo. Marcara tambm hora com um psiclogo e esperava que o profissional lhe desse conselhos quanto ao melhor modo de dizer s crianas que iriam morar sempre com ele. E com Paris, esperava. E rezou, pela primeira vez em anos, para ter Paris como esposa, pois a desejava tanto quanto queria ter Elly e Simon como filhos.
Elly parou de contar sua histria de repente.
 A vem Pris  disse, pulando do colo de Mac e indo abrir a porta.
A menina foi para os braos de Paris. Beijou-a, exclamando:
 Tive tanta saudade de voc, Pris. Achei que no ia voltar nunca mais.
 Ora, no seja boba  Paris protestou, beijando-a com amor.  Voltei, viu? Sempre volto. Nunca iria embora deixando minha Elly.  Ela ergueu a cabea e viu Mac. O sorriso que lhe dirigiu foi to puro e carinhoso que ele no se considerou merecedor daquilo.
Foi naquele instante que o desenho que carregara na cabea por semanas foi colocado na mesa de trabalho do arquiteto, em perfeito alinhamento.
At ento Mac no sabia exatamente o que era o amor. Por isso dissera que havia no sentimento do amor um pouco de exagero. No amara Judith. Casara-se com ela porque era bonita. Nunca amara ningum antes. E por estar amando agora tivera cime de Grey, e quisera conservar Paris consigo para fazer amor com ela. Porque a amava.
Mac refletia sobre o que dizer.
 Vou buscar Simon no quarto  Elly comunicou.  Ele tambm estava preocupado com voc, Pris.
A menina saiu correndo. Bem devagar, Paris seguiu-a, os olhos em Mac. Parou na porta e disse:
 Acabei de decidir, Mac.  Suspirou fundo.  Sim, eu me casarei com voc.
Tomando-lhe as mos, ele falou a nica coisa que achou lgica, e ficou observando a alegria encher de luz os olhos dela:
 Fico muito contente, porque te amo.

Na semana seguinte houve um enorme rebulio enquanto preparavam tudo para o casamento. Paris mandou que seus mveis, guardados num depsito, fossem enviados para a casa de Mac. Algumas das peas, sofs e poltronas de chintz colorido, dados por sua me, ficaram fora de lugar numa casa moderna. Porm, decorao de interiores no os preocupava.
Concentravam-se um no outro e no lar que iniciavam para as crianas que amavam e que decidiram adotar. Elly estava entusiasmada por ser dama de honra com Becky e iria ter um vestido que combinava com o de Becky.
Paris se casaria alegremente com Mac usando jeans e camiseta, ou qualquer vestido que trouxera, porm Becky e June insistiram em lev-la a Alban onde ela comprou um vestido azul e vu da mesma cor. Carregaria um buqu de rosas por serem as flores preferidas de sua me e de Mac.
Ela pensava o tempo todo na impressionante mudana que tivera lugar em sua vida, e nas feridas agora cicatrizadas.
Tudo valera a pena, refletia, enquanto seguia Elly e Becky da casa at o jardim com vista para o mar. As ondas arrebentavam contra as rochas no interminvel ritmo que lhe dava a esperana de que seu casamento seria igualmente constante.
Paris amava aquele lugar. Estava "em casa". Vagara durante algum tempo, perdera seu caminho e encontrara-o de novo, como tambm acontecera com Mac. Por milagre, eles encontraram-se.
Mac estava no jardim com o ministro da igreja que celebraria o casamento, e com Grey, este encantado por ser o padrinho, especialmente porque isso significava ser par de Becky. Interessara-se por ela, objeto de seu novo flerte.
Elly e Simon no saam de perto do tio, e esperavam o incio da cerimnia. Simon contentava-se em ouvir a msica enquanto chupava o polegar e segurava um livro grudado em sua nova camisa azul. Elly, impaciente com a lentido da Marcha Nupcial, sussurrava consigo mesma. "Depressa, Pris, estamos esperando". O pequeno grupo de convidados ria, e quando Paris se aproximou de Mac, ele sussurrou:
 Esperei por voc toda minha vida.
Dando-lhe a mo e fitando-o bem nos olhos, ela respondeu:
 Estou aqui agora. A espera terminou. Para ns dois.
Mac beijou-a no rosto e repetiu:
 Para ns dois.  E virou-se juntamente com Paris para ouvir as palavras do ministro.

FIM
